A sessão que dividiu o Brasil: relembre 10 momentos marcantes do impeachment de Dilma em 2016

Em 17 de abril de 2016, o plenário da Câmara dos Deputados foi palco de uma votação que entraria para a história do Brasil: o processo de impeachment contra a então presidente Dilma Rousseff. A sessão, que durou dez horas, foi marcada por discursos emocionados, homenagens inusitadas e embates acalorados entre parlamentares, refletindo a polarização política do país.

Enquanto as principais cidades brasileiras fervilhavam com protestos pró e contra o impeachment, no Congresso Nacional, a tensão era palpável. A pergunta repetida centenas de vezes pelo então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, “Como vota, deputado?”, ecoava em meio a gritos de ordem e discursos que extrapolavam o tempo regimental.

A votação resultou em 367 votos a favor do impeachment, que foi confirmado pelo Senado menos de um mês depois. A sessão, que se tornou um símbolo da política brasileira, expôs temas que ganhariam força nos anos seguintes, como a bandeira anticorrupção, o discurso religioso e a retórica contra o golpismo. Conforme informação divulgada pelo portal G1, a sessão da Câmara tornou-se um marco, prenunciando o antagonismo ideológico que se intensificaria.

Homenagem a Ustra e a frase de Bolsonaro

Um dos momentos mais chocantes da sessão foi a homenagem do então deputado Jair Bolsonaro ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido como torturador durante a ditadura militar. Bolsonaro, que na época filiado ao PSC, declarou: “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”. Ele também proferiu seu conhecido bordão: “Por um Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos”.

Bolsonaro comparou o ano do golpe militar, 1964, com 2016. Dilma Rousseff, vale lembrar, foi presa e torturada pelo regime militar. Naquele momento, Bolsonaro apresentava o que viria a ser sua marca registrada em discursos futuros, em um contexto de forte polarização ideológica.

A cusparada de Jean Wyllys e o voto contra

O deputado Jean Wyllys, do PSOL, protagonizou um dos episódios mais comentados ao disparar contra o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, chamando-o de “gângster”. Em seu voto, Wyllys criticou duramente a sessão, chamando-a de “farsa sexista” e votou contra o impeachment. Durante a sessão, Wyllys também cuspiu em Jair Bolsonaro, afirmando que foi uma resposta a insultos recebidos.

Wyllys classificou a sessão como uma “eleição indireta, conduzida por um ladrão, urdida por um traidor, conspirador e apoiada por torturadores, covardes, analfabetos políticos e vendidos”. Ele votou em nome da população LGBT, defendendo seus direitos e a democracia.

O voto de Tiririca e a “Glória a Deus”

O humorista e deputado Tiririca, conhecido por seu jeito irreverente, surpreendeu ao proferir um voto sucinto e direto: “Senhor presidente, pelo meu país, meu voto é sim”. A simplicidade de seu pronunciamento contrastou com a tensão do plenário, levando os parlamentares a entoarem “Tiririca, Tiririca, Tiririca…”.

Outro momento marcante foi o voto do deputado Cabo Daciolo, do PT do B, que bradou “Glória a Deus” antes de votar “sim”. Ele aproveitou para gritar “fora” para Dilma, Temer, Cunha e a Rede Globo, em um discurso que já antecipava sua futura candidatura à presidência. Daciolo também fez um apelo religioso, afirmando “Feliz a nação cujo Deus é o Senhor”.

Outros discursos e homenagens

A sessão foi repleta de discursos com características peculiares. Hiran Gonçales dedicou seu voto aos “maçons do Brasil”, Stefano Aguiar a “Liliane, meu amor”, e Laerte Bessa a “minha mãezinha”. Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, homenageou os “militares de 64” e pediu a prisão de Lula e Dilma. Jandira Feghali, do PC do B, expressou indignação com a condução da sessão por Eduardo Cunha e profetizou que “a luta apenas começou”. Bruno Araujo, do PSDB, votou “sim pelo futuro”, sendo posteriormente carregado pelos aliados. Luiz Henrique Mandetta, então deputado pelo DEM, saudou Campo Grande, sua cidade natal, antes de votar “sim”.

Eduardo Cunha, que já era réu na Lava Jato, votou “sim” com a frase “Que Deus tenha misericórdia dessa nação”. Ele seria afastado do cargo e posteriormente teria seu mandato cassado. Glauber Braga, do PSOL, chamou Cunha de “gângster” e votou contra o impeachment, em homenagem a figuras de esquerda que lutaram contra a ditadura.