Ditadura Militar Investigou ‘Familiocracia’ no Governo de Goiás nos Anos 70

Documentos sigilosos revelam que agentes da ditadura militar (1964-1985) produziram um dossiê detalhado sobre a **suposta concentração de cargos por parentes** na administração do então governador de Goiás, Leonino Caiado. A prática, que o regime classificou como “familiocracia”, gerava preocupações e era vista como prejudicial à imagem da “revolução de 31 de Março”.

O Serviço Nacional de Informações (SNI), órgão de espionagem da época, registrou em 1974 o crescimento “de forma negativa” dos comentários sobre a **ocupação de inúmeros cargos de confiança por familiares do governador** Leonino Di Ramos Caiado. A situação era percebida como um reflexo desgastante para o regime.

O dossiê militar apontava a necessidade de “acompanhar a evolução do domínio administrativo da família Caiado”, citando a nomeação de **16 parentes ou pessoas ligadas a familiares** na gestão do governador, que pertencia à Arena, partido de apoio ao regime. As nomeações incluíam primos, cunhados e outros parentes, que ocuparam posições como diretor, secretário e inspetor, muitas vezes sem experiência política prévia ou com aprovações consideradas irregulares.

Acusações de Corrupção e Compra de Votos

Um documento anterior, de abril de 1972, já associava a família Caiado à **”compra de votos” e “manobras de corrupção”** com o objetivo de manter a influência eleitoral após a instauração do regime. O texto descrevia como a família, “usando, por todos os meios, o prestígio dado ao governador Leonino Caiado, através de favores e acomodações”, foi se apoderando da administração estadual.

Os militares observaram que essa concentração de poder familiar **”revivia, assim, velhos tempos de domínio oligárquico familiar”**, algo que se acreditava ter sido banido da política brasileira. O fenômeno chamou a atenção da imprensa da época, que publicou críticas sobre a “familiocracia no governo de Goiás”.

A presença “acentuada, em cargos públicos de relevância, de membros da família Caiado, só justificáveis pelos entrelaçamentos consanguíneos e afins”, era um ponto de preocupação para o regime. O documento também mencionava que **”muitos deles registram irregularidades no exercício da função pública”**, apesar de algumas nomeações não apresentarem impedimento legal direto.

Impacto na Opinião Pública e Legado Familiar

Os órgãos de repressão consideraram que, mesmo quando legalmente permitidas, as nomeações familiares geravam um **impacto negativo na opinião pública**. A prática de nepotismo na administração pública estadual, conforme apontado pela reportagem da Folha, teria se mantido em governos posteriores da mesma família, com o último governador do clã deixando o cargo com ao menos 10 parentes e pessoas próximas em cargos comissionados.

Leonino Di Ramos Caiado e Ronaldo Caiado integram uma das **famílias mais tradicionais de Goiás**, com raízes que remontam ao século 18. A família teve forte presença política ao longo da história, com membros ocupando cargos de presidentes do estado (equivalente a governador), senadores e deputados, embora com perda de influência local após a Revolução de 1930.

A reportagem tentou contato com o ex-governador Leonino Caiado, que tem 92 anos e governou o estado entre 1971 e 1975, mas não obteve retorno até a publicação da matéria.