O cruzamento de dados públicos e o rastro do dinheiro oriundo de transferências federais revelam um cenário de contratos milionários e diversas inconsistências técnicas envolvendo familiares do atual prefeito de Manaus, Renato Júnior (Avante). Um levantamento minucioso realizado pelo jornalista Fred Santana, da Revista Cenarium, expõe como uma empresa controlada pela esposa e pelo primo do mandatário faturou alto com obras públicas no município de Autazes, no interior do Amazonas, em um período que coincide com ascensões políticas e injeção de “emendas PIX”.
A empresa no centro do escrutínio é a Total Mix Obra de Urbanização. Fundada em 2020, ela tem à frente Symonne Gomes Magalhães (esposa de Renato, que utiliza seu nome de solteira nos registros, Symonne Araújo Gomes) e o primo do prefeito, Matheus Carneiro Aragão Frota.
De acordo com a apuração da Revista Cenarium, a Total Mix acumulou mais de R$ 4,8 milhões em contratos com a Prefeitura de Autazes a partir de 2022. O salto nos negócios ocorreu logo após Renato Júnior assumir o comando da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf) de Manaus, em abril daquele mesmo ano.
Emendas PIX e a cronologia dos contratos
As contratações firmadas na gestão do prefeito de Autazes, Andreson Cavalcante (União Brasil), foram viabilizadas por meio de recursos de transferências especiais de parlamentares federais do Amazonas. A maior dessas contratações, orçada em R$ 2.134.872,00, foi assinada em junho de 2022 e tinha como objetivo a reforma e ampliação da sede da prefeitura local.

O valor dessa obra principal se aproxima diretamente de uma emenda parlamentar de R$ 2 milhões enviada a Autazes pelo então deputado federal Marcelo Ramos (PL, na época). O cofre do município também foi abastecido por outras transferências, incluindo R$ 1 milhão destinado pelo deputado Capitão Alberto Neto (PRB, na época).

A cronologia levantada pela reportagem de Fred Santana chama a atenção para a proximidade dos eventos. Em abril de 2022, Matheus Frota (primo de Renato e sócio da empresa) ganhou um cargo comissionado de Coordenador Institucional (DAS-6) na Secretaria Municipal de Agricultura de Manaus. Apenas dois meses depois, em junho, a Total Mix venceu o processo licitatório milionário em Autazes, no exato momento em que os recursos federais eram liberados.

De tecnologia da informação a obras de engenharia
Além das conexões políticas, o levantamento da Revista Cenarium aponta graves divergências estruturais na empresa contratada. A principal atividade econômica (CNAE) registrada pela Total Mix é o suporte técnico em tecnologia da informação. No entanto, a empresa tem vencido licitações para executar obras de engenharia civil de grande porte, uma incompatibilidade técnica considerada no mínimo incomum para processos que exigem comprovação de capacidade operacional.

A sede da Total Mix também levanta suspeitas: o endereço registrado é uma simples sala comercial em Manaus, estrutura aparentemente incompatível com o maquinário e o escopo necessários para tocar grandes canteiros de obras no interior. Além da reforma da prefeitura de Autazes, a empresa também abocanhou licitações para construir um prédio para a guarda municipal e uma academia ao ar livre na cidade.
Salto patrimonial e obras atrasadas
Os registros financeiros da empresa também apresentam uma evolução meteórica. Documentos oficiais iniciais indicavam um capital social de R$ 2,1 milhões. Contudo, análises recentes de sistemas de dados mostram que esse valor saltou para R$ 4,9 milhões, um aumento superior a 130% em um curto espaço de tempo, justamente na época em que a Total Mix passou a colecionar contratos polpudos.
Há ainda confusão na natureza jurídica da empresa, que transita entre os registros de EIRELI e LTDA em documentos do mesmo período. Matheus Frota, o primo do prefeito, também aparece como sócio-administrador de uma outra empresa chamada Alpha Beta, da qual não se encontram maiores informações operacionais.
Enquanto o capital da empresa cresce, a entrega dos serviços esbarra em críticas. Parte das obras assumidas pela Total Mix em Autazes registra lentidão e demora na execução, mesmo após a prefeitura local já ter liberado aditivos financeiros que somam cerca de R$ 760 mil para a construtora da família do prefeito de Manaus.