Bab el-Mandeb: O Novo Ponto de Tensão Geopolítica que Ameaça o Comércio Global
O Estreito de Bab el-Mandeb, um corredor marítimo de vital importância estratégica no Oriente Médio, está sob a mira de tensões geopolíticas que podem impactar significativamente a economia mundial. Localizado entre o Iêmen, Djibuti e Eritreia, este estreito controla o acesso ao Canal de Suez e é por onde transita cerca de 12% do petróleo comercializado globalmente por via marítima.
A rota ganhou ainda mais relevância como alternativa ao Estreito de Ormuz, que tem enfrentado bloqueios e interrupções. Agora, ameaças de que os Houthis, grupo armado do Iêmen apoiado pelo Irã, possam assumir o controle do Bab el-Mandeb, acendem um alerta para os mercados internacionais de energia e para o comércio em geral.
Conforme informações divulgadas pela agência semioficial iraniana Tasnim, ligada à Guarda Revolucionária, os Houthis estariam prontos para controlar o estreito como parte de suas ações de “resistência”. Essa possibilidade, aliada a recentes ataques com mísseis lançados do Iêmen contra Israel, intensifica a preocupação com a segurança e a estabilidade das rotas comerciais globais.
A Importância Estratégica do Bab el-Mandeb
O Estreito de Bab el-Mandeb, cujo nome em árabe significa “o portão das lágrimas” ou “o portão da dor”, é uma passagem estreita de 115 km de extensão e 36 km de largura. Ele liga o Mar Vermelho ao Golfo de Aden, servindo como um gargalo crucial para o tráfego marítimo entre a Europa e a Ásia. Sua importância histórica remonta a tempos antigos, sendo uma rota comercial fundamental para diversos impérios e potências ao longo dos séculos.
Com a abertura do Canal de Suez em 1869, Bab el-Mandeb consolidou-se como um ponto essencial para o comércio global. Estima-se que cerca de um quarto de todo o comércio marítimo mundial passe por esta região. Diariamente, aproximadamente 4,5 milhões de barris de petróleo e remessas globais de gás natural liquefeito (GNL) transitam por suas águas, tornando-o uma artéria vital para o fornecimento de energia para o Ocidente e a Ásia.
Ameaças e Impactos no Mercado de Energia
A agência Tasnim reportou que, caso haja necessidade, os “heróis do Ansar Allah do Iêmen” estão preparados para assumir o controle do Estreito de Bab el-Mandeb. Uma fonte militar iraniana declarou que fechar esta rota é “uma tarefa fácil para eles”. Essa declaração surge em um contexto de escalada de tensões, onde o Irã já havia advertido os Estados Unidos sobre o risco de “adicionar outro estreito aos seus problemas” se medidas “imprudentes” fossem tomadas em relação ao Estreito de Ormuz.
O líder houthi, Abdul Malik Al-Houthi, reforçou as ameaças, indicando que o grupo responderia militarmente a ataques dos EUA e de Israel. Um dirigente houthi, em condição de anonimato, afirmou que estão “militarmente prontos” para atacar o Estreito de Bab el-Mandab em apoio a Teerã. Essa possibilidade levou os Estados Unidos a emitirem um alerta sobre potenciais ataques de Houthis na região, destacando que o grupo “continua a representar uma ameaça aos ativos dos EUA, incluindo embarcações comerciais”.
Histórico de Incidentes e Consequências Econômicas
Não é a primeira vez que o Estreito de Bab el-Mandeb se torna palco de instabilidade. Entre 2023 e 2025, navios comerciais foram atacados pelo grupo houthi no Iêmen, em resposta à guerra entre Israel e o Hamas em Gaza. Esses ataques forçaram muitas empresas a desviar rotas, impactando as cadeias de abastecimento globais.
Um eventual bloqueio do Bab el-Mandeb agravaria a crise no mercado de energia, já pressionado pela situação no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. A interrupção do transporte marítimo em Ormuz já fez os preços do petróleo Brent saltarem para mais de US$ 100 por barril. A interrupção de mais uma rota vital poderia elevar ainda mais os preços de recursos essenciais e intensificar o impacto econômico do conflito no Oriente Médio.
Riscos para o Comércio Global
O Estreito de Bab el-Mandeb é uma artéria fundamental para o comércio global, não apenas de petróleo e gás, mas também de uma vasta gama de produtos, desde bens de consumo a matérias-primas agrícolas. A Arábia Saudita, por exemplo, utiliza esta passagem para escoar petróleo bruto de seus campos orientais. Além disso, exportações russas de petróleo com destino à Ásia também transitam pela região.
A instabilidade nesta rota pode gerar efeitos imediatos nos preços mundiais desses recursos vitais. A história demonstra o impacto de interrupções nesta passagem, como o encalhe do navio Ever Given no Canal de Suez em 2021, que causou estrangulamentos nas cadeias de abastecimento. Mais recentemente, os ataques de piratas e, posteriormente, dos rebeldes Houthis, já haviam forçado companhias marítimas a reforçar a segurança e a desviar rotas, evidenciando a fragilidade e a importância de Bab el-Mandeb para a economia global.