China em Alerta: ‘Crise dos Solteiros’ e ‘Taxa das Camisinhas’ Revelam Fracasso do Baby Boom e Futuro Incerto
A China, que outrora impôs a política do filho único para controlar seu crescimento populacional, agora se vê diante de um cenário oposto: a taxa de natalidade atingiu seu ponto mais baixo desde 1949. O país enfrenta uma drástica queda no número de nascimentos, um declínio populacional que já dura quatro anos e projeções alarmantes para o futuro.
O feriado do Ano Novo Lunar, tradicionalmente celebrado com reuniões familiares, expõe a pressão social sobre adultos solteiros para que se estabeleçam e tragam netos. Essa preocupação familiar reflete uma questão nacional que assombra as autoridades: a queda vertiginosa da taxa de natalidade.
Em 2023, a China registrou apenas 5,63 nascimentos por mil habitantes, um recorde indesejado. A situação é tão crítica que o número de mortes superou os nascimentos pelo quarto ano consecutivo, resultando em uma perda de cerca de 3,4 milhões de habitantes no último ano. Conforme dados divulgados pelo Escritório Nacional de Estatísticas e projeções de especialistas da ONU, a China pode perder mais da metade de sua população atual até o final do século. As informações são da BBC News China.
O Legado da Política do Filho Único e a Virada Demográfica
Nas décadas de 1970 e 1980, a China temia o impacto do crescimento populacional em seus planos econômicos. A política do filho único, implementada em 1979, visava controlar o aumento populacional através de incentivos e, por vezes, medidas coercitivas. Estima-se que a política tenha evitado o nascimento de cerca de 400 milhões de bebês, mas também desequilibrou a estrutura etária do país.
A preocupação mudou de excesso populacional para o envelhecimento da população, com receios de desaceleração econômica devido à diminuição da força de trabalho e à relação desfavorável entre contribuintes e pensionistas. Especialistas acreditavam que a baixa natalidade era temporária e se recuperaria com o fim das restrições.
O Fracasso das Políticas para Incentivar o Baby Boom
No entanto, as políticas subsequentes, como a de dois filhos em 2016 e a de três filhos em 2021, não geraram o crescimento esperado na taxa de natalidade. Especialistas, como o professor Kerry Brown, do King’s College de Londres, apontam que o declínio da natalidade já era uma tendência desde antes da política do filho único, influenciado por fatores financeiros e sociais.
Brown sugere que o governo subestimou as dificuldades econômicas enfrentadas pelas famílias para criar filhos. A rápida mudança socioeconômica na China, que ocorre em questão de anos, contrasta com a velocidade com que as políticas demográficas surtem efeito, que se estendem por décadas.
A ‘Crise dos Solteiros’ e o Impacto de Gênero
A política do filho único também deixou um legado significativo no equilíbrio de gênero. A preferência por filhos homens levou a abortos seletivos de fetos femininos, resultando em uma disparidade entre homens e mulheres. Isso gerou a chamada “crise de solteiros”, com dezenas de milhões de homens encontrando dificuldades para encontrar parceiras.
A ascensão da educação superior entre as mulheres também reconfigurou o mercado de casamentos. Muitas mulheres com alta escolaridade optam por casar mais tarde ou permanecer solteiras. Em 2023, 43% das mulheres chinesas entre 25 e 29 anos eram solteiras, impactando ainda mais a janela reprodutiva e a taxa de natalidade.
Incentivos Frustrados e os Altos Custos da Paternidade
Para reverter a queda na natalidade, Pequim implementou incentivos financeiros, como cerca de US$ 500 anuais por filho menor de três anos. Contudo, medidas controversas, como um imposto sobre contraceptivos, geraram preocupações. Jovens citam os altos custos da criação dos filhos como principal motivo para não ter mais descendentes.
Histórias como a de Millie, uma controladora de tráfego aéreo que hesita em ter um segundo filho devido às pressões no ambiente de trabalho, e Li Hongfei, que enfrenta dificuldades financeiras para sustentar a família, ilustram os desafios. A China está envelhecendo antes de enriquecer, um fenômeno crítico que pode impactar não apenas sua economia, mas também a economia global, com potencial para aumentos de preços em outras partes do mundo.