30 anos do Massacre de Carajás: Brasil registra 1 morte no campo a cada 10 dias desde tragédia
O dia 17 de abril de 1996 se tornou um divisor de águas na história da luta pela terra no Brasil. O massacre de 19 trabalhadores rurais sem-terra pela Polícia Militar do Pará, na Curva do S, em Eldorado do Carajás, deixou um rastro de violência que perdura por três décadas.
Desde então, o país convive com uma média alarmante de uma morte no campo a cada 10 dias, totalizando 1.149 assassinatos entre 1996 e 2025, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Os conflitos agrários seguem em ascensão, com mais de 2.000 casos registrados desde 2022, atingindo a segunda maior marca histórica em 2024.
A repercussão internacional do massacre de Carajás impulsionou debates e ações pela reforma agrária na época, com a criação de novos assentamentos. Contudo, o impulso inicial diminuiu, e as tensões fundiárias se tornaram uma marca persistente do cenário rural brasileiro, conforme apontam os dados da CPT.
A impunidade como marca da violência no campo
Apesar do impacto inicial, a reforma agrária perdeu força e os conflitos se intensificaram. No sudeste do Pará, região marcada pelo massacre de 1996, mais de 190 fazendas estão ocupadas, envolvendo cerca de 20 mil famílias. José Batista Afonso, advogado da CPT, descreve a área como a de maior concentração de conflitos agrários não resolvidos no Brasil.
Os relatórios da CPT evidenciam não apenas a persistência, mas também a reconfiguração da violência. A **impunidade** se tornou um traço marcante, refletida em episódios posteriores como os massacres de Pau D’Arco (PA) e Colniza (MT) em 2017. Neste último ano, foram registradas 74 mortes em conflitos no campo, o maior número da série histórica.
Em Pau D’Arco, dez sem-terra foram mortos em uma ação policial, e os 16 policiais suspeitos ainda não foram julgados. Em Colniza, nove pessoas foram assassinadas em um assentamento, e apenas um dos três réus foi condenado a 200 anos de prisão por homicídio qualificado.
Mudança no perfil das vítimas e novas formas de conflito
A dinâmica dos conflitos agrários também se transformou. Se antes as disputas eram mais pontuais e marcadas por massacres de grande repercussão, hoje elas se tornaram mais difusas e permanentes. Além disso, o perfil das vítimas mudou significativamente.
Nos anos 1990, a maioria dos mortos eram **trabalhadores sem-terra e posseiros**. Nos últimos anos, cresceram os ataques contra **indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais**. Em 2024, os indígenas lideraram as estatísticas de mortes no campo, evidenciando uma nova face da violência agrária.
O avanço da pauta anti-reforma agrária e a atuação de grupos
O discurso contrário aos movimentos de luta pela terra ganhou força no Congresso Nacional, impulsionado pela bancada ruralista. Propostas legislativas buscam restringir ocupações e endurecer punições, chegando a cogitar o enquadramento de ações como terrorismo.
Esse cenário se acentuou a partir de 2018, com a ascensão de Jair Bolsonaro, que incorporou explicitamente a crítica aos movimentos de reforma agrária em sua agenda presidencial. Candidatos como Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado mantêm um discurso semelhante.
O ambiente político adverso dificulta avanços na reforma agrária. José Batista Afonso ressalta que aprovar medidas que interfiram na concentração de terras é praticamente inviável com a atual composição do Congresso.
Nesse contexto, surgiram movimentos como o **Invasão Zero**, que une proprietários rurais para impedir invasões de terra, muitas vezes com homens armados e sem respaldo judicial. Ayala Ferreira, do MST, critica essa atuação, classificando-a como “milícias legalizadas” com uma “nova roupagem para a violência”.
Ferreira também destaca que os conflitos no campo abrangem questões ambientais e trabalhistas, e aponta a necessidade de o governo Lula avançar com políticas de reforma agrária para atender às 145 mil famílias acampadas no Brasil, sendo 30 mil apenas no Pará.
Nesta semana, o MST reedita a marcha pela BR-150, de Curionópolis a Eldorado do Carajás, rememorando os eventos de 1996 e reforçando a luta por terra e justiça.