O Irã usa o Estreito de Ormuz como uma arma de guerrilha econômica global
O Irã, apesar de ser uma potência média, adota uma estratégia de guerra assimétrica para enfrentar adversários mais fortes, como os Estados Unidos. Essa abordagem, segundo especialistas, utiliza o controle sobre o Estreito de Ormuz como uma ferramenta econômica e militar poderosa. O objetivo é impor custos e dificuldades aos EUA e seus aliados, utilizando recursos que não exigem um confronto direto em pé de igualdade.
A república islâmica domina uma rota marítima crucial, responsável por um quinto da oferta mundial de petróleo. Essa posição estratégica permite ao Irã influenciar o fluxo global de energia, utilizando táticas que vão desde ameaças de bloqueio até o uso de mísseis e drones. A situação foi destacada pela revista The Economist, que ilustrou a influência iraniana sobre o mapa-múndi.
A estratégia iraniana de guerra assimétrica, conforme explicam analistas como Eduardo Svartman e Juliano Cortinhas, baseia-se na exploração das assimetrias de poder e recursos. Em vez de buscar um confronto militar direto, o Irã opta por táticas que maximizam seu impacto com o menor custo possível, dificultando a navegação e elevando os riscos para o comércio internacional. Conforme informações divulgadas em análises de segurança e defesa, essa abordagem era previsível diante da escalada de tensões na região.
A Vantagem Geográfica e Militar do Irã em Ormuz
O Estreito de Ormuz, um corredor marítimo de aproximadamente 150 a 170 quilômetros, é vital para o transporte de petróleo do Golfo Pérsico. O Irã, localizado em sua margem norte, tem a capacidade de atingir embarcações que transitam pelo local. Essa posição confere ao país uma vantagem significativa, permitindo-lhe controlar e, potencialmente, restringir o tráfego marítimo.
A profundidade limitada do estreito, com canais de navegação estreitos, facilita a efetivação de bloqueios ou ameaças, mesmo com o uso de drones. Essa característica, aliada à proximidade de instalações petrolíferas e outros derivados importantes, torna o estreito um ponto nevrálgico para a economia global. A simples ameaça de minas marítimas ou ataques com mísseis é suficiente para desencorajar companhias de navegação e seguradoras.
Guerra Assimétrica: A Tática Iraniana Contra Potências Superiores
A guerra assimétrica é definida como um tipo de conflito onde as estratégias e meios militares dos envolvidos são desiguais. O Irã, por não poder competir militarmente em pé de igualdade com os Estados Unidos, desenvolveu essa capacidade de luta. “Apesar de ser uma potência média, o Irã não consegue travar uma guerra em pé de igualdade com os Estados Unidos e, por isso, desenvolveu a capacidade de lutar de forma assimétrica”, explica Eduardo Svartman, professor do Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais (PPGEEI) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Entre os recursos utilizados nessa estratégia, Svartman destaca o apoio a forças irregulares como o Hezbollah no Líbano e os houthis no Iêmen. No conflito atual, o objetivo é “impor custos que serão dirigidos aos Estados Unidos e a seus aliados”, limitando a circulação de navios por Ormuz. O estreito não é chave apenas para o petróleo cru, mas também para o trânsito de fertilizantes, polímeros e outros derivados.
Erros de Cálculo e Falhas de Inteligência dos EUA na Região
A abordagem iraniana de guerra assimétrica, embora não tenha surpreendido totalmente os analistas, expôs erros de cálculo por parte dos Estados Unidos. Juliano Cortinhas, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, aponta que a “máquina de guerra, de poder militar absoluto dos Estados Unidos dá a essas pessoas que têm pouca capacidade analítica a impressão de que podem fazer qualquer coisa”. No entanto, no cenário atual, com guerras assimétricas e tecnologias emergentes, essa percepção se mostra equivocada.
Cortinhas também critica o processo decisório nos Estados Unidos, descrevendo-o como “completamente caótico”, especialmente durante a administração Trump, que teria priorizado afinidade ideológica em detrimento de competência. Além disso, a inteligência norte-americana parece ter falhado em fornecer uma avaliação precisa da capacidade de defesa iraniana. A inteligência de Israel, que apostava em uma revolução interna após a eliminação da cúpula do regime, também não se concretizou.
O Impacto da Guerra Assimétrica na Comunidade Internacional
A guerra assimétrica utilizada pelo Irã também serve para conferir ambiguidade ao conflito, dificultando o reconhecimento internacional das ações iranianas como atos formais de guerra. Maria Eduarda Dourado, mestre em Relações Internacionais, explica que “a lógica da vitória militar convencional deve ser substituída por outra de resiliência e dissuasão multidimensional”. A ideia é tornar o ataque do inimigo inútil, caro ou politicamente impossível.
A eficácia do controle de Ormuz depende menos da destruição física do adversário e mais da capacidade de sustentar narrativas e coalizões internacionais. A presença da OTAN, por exemplo, poderia transformar a disputa entre Estados Unidos e Irã em uma questão de segurança coletiva. O embaixador aposentado Sérgio Tutikian lembra que a ameaça de fechamento do Estreito de Ormuz é uma tática iraniana recorrente desde a Guerra Irã-Iraque, e que o regime de Teerã a utiliza estrategicamente em momentos de tensão.