Praias paradisíacas para turistas, com acesso restrito a moradores: o drama do Caribe
As ilhas caribenhas, mundialmente famosas por suas praias de areia branca e águas cristalinas, enfrentam um dilema crescente: a exclusão de seus próprios habitantes de litorais que antes lhes pertenciam.
Em Barbuda, Jamaica e Granada, ativistas denunciam como grandes empreendimentos turísticos e leis herdadas do período colonial estão transformando esses paraísos em refúgios exclusivos para visitantes ricos, restringindo o acesso dos moradores.
Essa realidade, que afeta diretamente a cultura e o modo de vida local, levanta sérias questões sobre o verdadeiro custo do turismo para as comunidades caribenhas. Conforme informações divulgadas por ativistas e reportagens locais, a situação se agrava a cada ano.
Barbuda: O Legado da Terra Comunitária Ameaçado por Incorporadoras Estrangeiras
Em Barbuda, a terra é tradicionalmente comunitária, um sistema que remonta ao fim da escravidão em 1834 e foi oficializado pela Lei de Terras de Barbuda em 2007. No entanto, essa estrutura está sob forte pressão. Miranda Beazer, ex-dona do bar Pink Sands Beach, relata como seu estabelecimento, um ponto de encontro por mais de 20 anos, foi demolido por incorporadoras estrangeiras após o furacão Irma em 2017.
Beazer alega que, apesar de possuir um arrendamento de 30 acres, hoje tem acesso a apenas oito. A Global Legal Action Network (GLAN) apoia sua luta, afirmando que áreas remanescentes estão sendo ocupadas ilegalmente pelas incorporadoras Murbee Resorts e Peace Love and Happiness (PLH).
A Murbee Resorts declara ser detentora legal de contratos de arrendamento e nega construções ilegais. Já a PLH afirma não ocupar a área e ter seguido todos os acordos. Contudo, Beazer e outros ativistas permanecem determinados a defender o que consideram seu direito de acesso.
A última faixa de litoral sul de Barbuda acessível aos moradores locais está sob ameaça de se tornar um refúgio exclusivo para turistas, com empreendimentos como o The Beach Club Barbuda, um projeto de Robert De Niro e James Packer.
O resort, que ocupa 400 acres e inclui o Nobu Beach Inn, foi construído sob a Lei Paradise Found de 2015, que isenta o complexo da Lei de Terras de 2007. Ativistas contestaram judicialmente, mas o Comitê Judicial do Conselho Privado (JCPC) decidiu em 2022 a favor do governo, argumentando que os direitos dos barbudanos não constituem um interesse sobre a propriedade.
A Paradise Found assegura que o Beach Club foi desenvolvido dentro da legalidade e que o acesso público à praia Princess Diana permanece inalterado.
Jamaica: Leis Fundiárias Discriminatórias e Acesso Limitado às Praias
Na Jamaica, a legislação fundiária também é alvo de críticas. Devon Taylor, presidente do Jamaica Beach Birthright Environmental Movement (Jabbem), afirma que a lei atual discrimina os jamaicanos, pois os priva de direitos sobre a faixa costeira e áreas adjacentes.
Uma nova lei proposta pelo governo para ampliar o acesso dos moradores às praias é vista com desconfiança por Taylor, que argumenta que ela impõe mais restrições ao incentivar hotéis a vender passes de acesso, em vez de fortalecer os direitos fundiários.
Segundo a Jabbem, menos de 1% do litoral jamaicano permanece livremente acessível à população local. A organização, junto a outros grupos comunitários, move cinco disputas judiciais contra o governo e incorporadoras privadas relacionadas ao acesso às praias.
Granada e o Dilema do Turismo em Pequenas Ilhas
Ilhas menores como Granada também enfrentam disputas judiciais devido ao aumento da demanda turística por destinos menos conhecidos. Kriss Davies, presidente do grupo Grenada Land Actors, teme que o crescimento de grandes resorts possa apagar o charme único da ilha.
O Caribe é a região mais dependente do turismo no mundo, com cerca de metade dos visitantes sendo americanos, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Para muitos governos da região, o turismo representa um caminho atraente para o desenvolvimento econômico.
No entanto, como ressalta Devon Taylor, “viajar nunca é neutro: carrega um peso econômico e moral”. Ele aponta que esses empreendimentos frequentemente expulsam moradores de suas terras ancestrais, restringem o acesso público às praias e desviam riqueza das pessoas cuja cultura sustenta a experiência turística.
Enquanto a busca por um pedaço do paraíso continua, defensores da terra no Caribe temem que o turismo, em vez de trazer oportunidades, transforme de maneira irreversível os lugares que chamam de lar.