Mulheres do Amazonas Revivem a Cerâmica Japuna, Uma Tradição Ancestral Esquecida que Gera Renda e Valoriza a Cultura Indígena

A arte milenar de produzir a cerâmica japuna, utilizada por antepassados indígenas e ribeirinhos na Amazônia para assar farinha, está sendo resgatada pelas mãos de mulheres na comunidade da Missão, em Tefé, no interior do Amazonas. Uma iniciativa do Instituto Mamirauá, intitulada “Cadeias Operatórias das Japuna no Médio Solimões”, busca unir o conhecimento arqueológico com a sabedoria das artesãs locais.

A descoberta de peças arqueológicas em 2017, identificadas como japuna, impulsionou a pesquisa. Arqueólogos encontraram vestígios dessa cerâmica em escavações na zona urbana de Tefé, despertando o interesse em saber se as técnicas de produção ainda existiam.

Após uma busca que se estendeu até 2024, os pesquisadores encontraram na comunidade da Missão as mulheres que guardavam as memórias e as habilidades de suas mães e avós. Essa reconexão com o passado ancestral traz não apenas a preservação cultural, mas também novas oportunidades de sustento. Conforme informação divulgada pelo Instituto Mamirauá.

Um Resgate Histórico e Cultural em Andamento

Dona Lucila Frazão, 69 anos, descendente do povo Miranha, é uma das protagonistas desse resgate. Ela herdou o conhecimento de sua avó indígena e relembra com carinho a época em que a produção de japuna era uma atividade comum em todas as famílias. “Lembro como se fosse hoje. Cada família produzia em sua própria casa, a produção era grande, com peças de cerâmica de grande porte, e todas as mulheres, das mais novas às mais velhas, sabiam produzir. Isso me traz não apenas memórias da infância, mas também a necessidade de voltar a produzir”, relata Dona Lucila.

O Projeto “Cadeias Operatórias das Japuna” em Ação

Em 2025, as atividades do projeto ganharam força. As mulheres da comunidade foram reunidas para participar de todas as etapas do processo produtivo da cerâmica japuna. Isso inclui desde a coleta do barro na região até a modelagem, a queima natural do material e a finalização das peças, tudo de acordo com as técnicas ancestrais aprendidas com suas antepassadas.

A arqueóloga Geórgea Holanda expressou sua admiração pela continuidade desse saber: “Acho que foi muito importante acompanhar algo que, para mim, só existia na teoria. Ver isso na prática foi surpreendente, elas ainda detêm esse conhecimento ancestral, adquirido por suas antepassadas.”

Ampliação da Produção e Geração de Renda

Além da japuna tradicional, as mulheres começaram a confeccionar outros itens que não eram produzidos há anos, como vasos, fogareiros, fruteiras e panelas. Essa diversificação amplia as possibilidades de geração de renda para o grupo, fortalecendo a economia local e valorizando o artesanato amazônico.

A pesquisa do Instituto Mamirauá se divide em três eixos: escavações arqueológicas na região, estudos etno-históricos baseados em relatos e na memória das mulheres, e pesquisas etnográficas para observar as técnicas das ceramistas. Os dados coletados indicam que as japunas produzidas atualmente mantêm uma forte semelhança com as peças antigas.

Expansão para Novas Comunidades e Valorização da Memória Local

A próxima etapa do projeto prevê a chegada à comunidade de Nogueira, também na região de Tefé, em abril. O objetivo é identificar outras mulheres que ainda possuam as práticas ancestrais de produção de cerâmica. A pesquisadora Inês Vitória ressalta a importância de dar visibilidade a essas histórias: “Eu espero que outras pessoas conheçam a história da comunidade, histórias que não estão apenas em documentos escritos, mas vivem nas memórias dos moradores da comunidade e são histórias que merecem ser valorizadas.”

A retomada da produção da cerâmica japuna não é apenas um resgate de uma técnica antiga, mas um ato de fortalecimento cultural e empoderamento feminino, garantindo que o legado ancestral continue a prosperar na Amazônia.