Dez anos após o impeachment de Dilma, aliados de Lula que votaram a favor relutam em discutir o tema, com poucos admitindo erro
O impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, ocorrido há dez anos, continua sendo um divisor de águas na política brasileira. Para muitos aliados do atual presidente Lula, o episódio é um fantasma que preferem não revisitar, especialmente em um momento de articulação para as eleições de 2026.
Uma apuração da Folha de S.Paulo buscou ouvir 19 lideranças políticas que apoiaram o impeachment. Deste grupo, a maioria optou pelo silêncio ou pela negativa de arrependimento. Apenas duas declararam explicitamente que se arrependem da decisão tomada.
A postura reflete um pragmatismo político do PT e de seus aliados, que buscam construir pontes para futuras alianças eleitorais, mesmo com aqueles que, no passado, votaram contra Dilma. Conforme apurado pelo jornal, o tema é tratado com cautela, priorizando a unidade em detrimento de revisitar polêmicas passadas.
Silêncio e negação marcam o reencontro com o passado
Dos 19 políticos procurados, 12 não se manifestaram ou não responderam às tentativas de contato. Apenas duas figuras admitiram arrependimento pelo voto a favor do impeachment. Uma delas classificou a justificativa para a cassação como frágil, sem detalhar sua posição na época.
Outras duas lamentaram o desfecho do processo, mas não afirmaram que agiriam de forma diferente. Em contrapartida, duas pessoas declararam não se arrepender de suas escolhas. A lista de ouvidos inclui ex-ministros de Lula, filiados atuais do PT e políticos que o partido considera apoiar em futuras disputas eleitorais.
Lideranças com passados divergentes buscam alinhamento presente
Geraldo Alckmin, vice-presidente e pré-candidato à reeleição, que foi ministro no governo Dilma e governador de São Paulo pelo PSDB em 2016, declarou, por meio de sua assessoria, que o impeachment teve uma **”justificativa frágil que pôs em risco a democracia no Brasil”**. Ele lembrou que, em 2015, já não via força na acusação das pedaladas fiscais, base para o processo.
Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente e cotada para o Senado, defendeu o impeachment em 2016 e, em 2018, afirmou não se arrepender, declarando: **”Apoiei o impeachment por convicção, houve crime de responsabilidade. Não me oriento por métrica eleitoral”**. Ela busca agora se integrar a chapas com o PT em São Paulo.
Simone Tebet, ex-ministra do Planejamento e pré-candidata ao Senado, justificou seu voto em 2016 pelas **”consequências nefastas a esta e às futuras gerações que pagarão esta conta”**. Ela deixou o ministério a pedido de Lula para concorrer em São Paulo.
Arrependimento pontual em meio à busca por unidade
Cristovam Buarque, que deixou o PT em 2005, votou pelo impeachment e hoje se declara arrependido. Ele disse: **”Votei como economista e confesso que errei como político”**. Buarque relatou ter sido “massacrado” pelos petistas, mesmo apoiando Lula em 2022.
A senadora Eliziane Gama, recém-filiada ao PT, admitiu arrependimento pelo voto pró-impeachment quando era deputada. Para ela, **”É um dos poucos erros que cometi na vida política”**. O ministro José Guimarães (PT) avalia que essas autocríticas demonstram uma **”reflexão da aberração jurídica que foi o impeachment”**.
Floriano Pesaro, diretor da ApexBrasil e ex-deputado do PSDB em 2016, classificou seu voto como **”um erro histórico”**, afirmando que muitos votaram a favor do impeachment por terem sido **”manipulados”**.
Rodrigo Pacheco, senador e nome defendido por Lula para o Governo de Minas Gerais, votou pelo impeachment como deputado, seguindo o PMDB e a OAB. Ele reconhece hoje o **”trauma gerado pela ruptura de um mandato presidencial”** e considera que as consequências **”não foram as melhores”**.
Outros senadores como Renan Calheiros, Eduardo Braga, Eunício Oliveira e Omar Aziz, que votaram pelo impeachment, hoje discutem alianças com o PT em seus estados, demonstrando a complexa teia de interesses políticos que moldam o cenário atual.