A crescente insatisfação de católicos conservadores com Donald Trump, impulsionada por suas críticas ao Papa Leão XIV e pela controversa guerra no Irã, pode custar-lhe votos valiosos em 2024.

Líderes católicos conservadores, antes aliados fiéis de Donald Trump, estão expressando descontentamento com o presidente americano. A razão principal não é apenas o atrito público com o Papa Leão XIV, mas também a condução da guerra no Irã.

A recente escalada de críticas, desencadeada por um longo ataque de Trump nas redes sociais ao primeiro papa americano, que ele descreveu como liberal demais e ‘brando com o crime’, somada a uma imagem gerada por inteligência artificial que o retrata de forma divina, consolidou uma mudança de opinião.

Essa nova postura de parte da base conservadora católica, que historicamente apoiou Trump, levanta questões sobre o futuro de seu apoio e seu desempenho eleitoral em 2024. As informações são da BBC.

Críticas de Aliados Conservadores à Guerra e ao Papa

O bispo Joseph Strickland, que já participou de eventos em apoio a Trump, incluindo a consagração de Mar-a-Lago e discursos na CPAC, fez um raro rompimento público. Ele afirmou que a guerra no Irã não atende aos critérios de uma guerra justa e se alinhou ao apelo do Papa Leão XIV pela paz.

“Não acredito que este conflito atenda aos critérios de uma guerra justa. Estou com o papa e seu apelo pela paz. Não se trata de política. Trata-se de verdade moral”, declarou Strickland à BBC. Ele enfatizou que a escala de mortes civis impede que a guerra seja considerada justa.

Strickland também criticou o uso da religião para justificar ações militares. “Tudo se torna muito sombrio quando a religião é usada para justificar comportamentos imorais”, disse, contrastando com a essência da fé.

O Impacto Político da Desafeição Conservadora

A mudança na percepção de católicos conservadores sobre Trump representa um risco político significativo, especialmente considerando o aumento de seu apoio entre esse grupo em 2024. Dados do Pew Research Center mostram que, em 2024, 62% dos católicos brancos votaram em Trump, enquanto 41% dos católicos hispânicos o apoiaram.

Apesar das divisões, a tendência geral tem sido de aproximação dos católicos com o Partido Republicano. No entanto, a convergência de opiniões entre católicos de esquerda e direita sobre a guerra no Irã, em apoio ao Papa Leão XIV, é uma raridade.

Greg Smith, do Pew Research Center, aponta que, para muitos católicos americanos, a política muitas vezes pesa mais que a fé, dividindo-os por linhas partidárias. Essa polarização se reflete em temas como aborto e imigração.

A Visão de Líderes Católicos sobre o Conflito e a Liderança do Papa

Peter Wolfgang, diretor executivo do Family Institute of Connecticut e uma voz influente na direita católica, criticou duramente o comportamento de Trump em relação ao Papa Leão XIV. Ele argumentou que Trump não compreende a natureza do catolicismo, onde ataques ao Papa são vistos como ataques à própria Igreja.

“Quanto mais ele atacar o papa, mais seu apoio entre eleitores católicos vai cair”, alertou Wolfgang. Ele também mencionou que a mesma fé que o levou a contestar bispos críticos às políticas de imigração de Trump agora o faz se opor à guerra no Irã.

Wolfgang destacou que, quando líderes americanos falam em destruir civilizações ou fazem orações por violência, é natural que católicos conservadores se alinhem ao Papa Leão XIV. Ele citou a oração controversa de Pete Hegseth no Pentágono como exemplo de discurso que afasta os fiéis.

O Papa Leão XIV como Voz Moral em Meio à Polarização

O Vaticano tem insistido que o Papa Leão XIV não está em conflito com Trump, mas sim defendendo princípios morais contra a lógica da guerra. A declaração do Papa de que a ameaça de aniquilação de uma civilização é “absolutamente inaceitável” reforça essa posição.

O reverendo Antonio Spadaro, do Vaticano, explicou que o Papa precisa fazer declarações públicas contra o conflito para “delimitar o limite moral” do que é aceitável. Ele ressaltou que, embora haja diálogo nos bastidores, a voz pública do Papa é crucial.

Spadaro concluiu que o Papa Leão XIV, ao se opor à guerra, “desloca o debate católico para longe de uma lógica puramente partidária”, mesmo que não una todos os fiéis. A tentativa de Trump de deslegitimar o Papa, paradoxalmente, confirma a importância moral de sua voz, pois “se Leão XIV fosse irrelevante, não mereceria uma palavra”.