Segunda fase da Operação Tormenta prende cinco suspeitos de integrar esquema milionário de agiotagem no Amazonas, com áudios chocantes revelando ameaças e pressão psicológica contra devedores, muitos deles servidores públicos.

Gravações obtidas pela Polícia Civil do Amazonas expõem a crueldade de um esquema de agiotagem que explorava vítimas com empréstimos clandestinos e juros exorbitantes. A segunda fase da Operação Tormenta, deflagrada nesta terça-feira (14), resultou na prisão de cinco pessoas suspeitas de integrar a organização criminosa. Os áudios revelam um ciclo de extorsão, com cobranças insistentes, intimidações e severa pressão psicológica.

As investigações apontam que o grupo, organizado em núcleos integrados, movimentou mais de R$ 150 milhões. Entre os presos está o tenente da Aeronáutica Caique Assunção dos Santos, apontado como líder de um dos núcleos. A polícia detalha que as vítimas eram pressionadas a pagar dívidas que cresciam exponencialmente, com juros que podiam ultrapassar 50% ao mês.

O modus operandi do grupo incluía a apropriação de bens das vítimas, como veículos, joias, eletrônicos e imóveis. Documentos pessoais e cartões bancários também eram tomados, e os criminosos chegavam a controlar aplicativos para retirar dinheiro diretamente das contas bancárias dos devedores. Conforme informação divulgada pela Polícia Civil, as gravações são fundamentais para comprovar a atuação desses grupos organizados.

Tenente da Aeronáutica no Comando de Grupo de Agiotagem

O tenente da Aeronáutica Caique Assunção dos Santos é apontado como uma figura central no esquema de agiotagem que operava no Amazonas. Segundo a Polícia Civil, ele liderava um dos grupos que se beneficiavam dos empréstimos clandestinos. A investigação indica que Santos possuía conexões com outros núcleos da organização, reforçando a estrutura hierárquica e a amplitude das operações criminosas.

A atuação de Santos, segundo as apurações, ia além das cobranças financeiras. Ele também é investigado por uma tentativa de homicídio ocorrida em fevereiro na Zona Norte de Manaus, tendo fugido do local e abandonado um veículo que foi apreendido pela polícia. A complexidade de suas atividades criminosas demonstra a periculosidade do esquema desarticulado.

Ciclo de Extorsão e Ameaças Veladas em Áudios Reveladores

Os áudios obtidos pela polícia pintam um quadro sombrio da extorsão praticada pelos agiotas. Em um dos trechos, um suspeito pressiona uma vítima a quitar a dívida com o próprio salário, demonstrando a falta de escrúpulos do grupo. O tom das mensagens varia entre a cobrança direta e ameaças veladas, visando sempre desestabilizar psicologicamente os devedores.

Em uma das gravações, um agiota diz: “A gente já fechou um combinado. Você procurou o crime para ajeitar sua vida, a gente ajeitou parcelado, direitinho, quem não tá honrando é tu minha parceira, entendeu? Não sou eu não, não sou eu que estou te pressionando a toa não. Passa as datas, tu marca as datas e tira a gente pra otário”. Essa fala ilustra a forma como os criminosos lidavam com os devedores, debochando de possíveis denúncias à polícia.

Servidoras Públicas, Especialmente Mulheres, Principais Vítimas

As investigações revelaram que as principais vítimas do esquema eram servidoras públicas, com destaque para mulheres que atuam em órgãos como o Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) e o Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM). A vulnerabilidade dessas profissionais era explorada pelos agiotas, que ofereciam empréstimos como uma solução rápida para problemas financeiros.

Uma servidora do TJAM relatou ter feito um empréstimo inicial de R$ 5 mil, mas a dívida escalou para valores milionários. Ela perdeu dois imóveis e um carro, além de ter sofrido ameaças de morte e até de sequestro de seu filho. Esse caso evidencia a gravidade do ciclo de extorsão que mantinha as vítimas em constante medo e desespero.

Empresas de Fachada e Bens de Luxo Apreendidos na Operação

Para ocultar a origem ilícita do dinheiro, o grupo utilizava empresas de fachada, e a Justiça determinou o bloqueio financeiro de pelo menos seis delas. Uma dessas empresas, ligada a investigados da primeira fase da operação, movimentou mais de R$ 3,3 milhões, segundo dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). A operação resultou na apreensão de armas, dinheiro, documentos e cerca de 30 veículos de luxo.

Apesar da prisão de parte do grupo, as investigações indicam que o esquema continuou operando através de intermediários, mantendo as cobranças e movimentações financeiras. Seis suspeitos ainda estão foragidos, e a polícia pede a colaboração da população para localizá-los. A lista inclui Igor Francys Costa do Cazal, conhecido como “Alemão”, Francisco Miguel Ferreira Neto, Gilmar Silva de Souza, Bruno Luan Oliveira Vasquez, Gustavo da Silva Albuquerque e Marco Aurélio de Morais Pinheiro Júnior.