Sobreviventes de Incêndio em Hong Kong Retornam a Apartamentos Devastados 5 Meses Após Tragédia

Cinco meses após o incêndio que custou a vida de 168 pessoas e destruiu um conjunto habitacional em Hong Kong, os moradores desalojados começaram a retornar aos seus lares nesta segunda-feira (20). A visita, no entanto, é marcada por profunda dor, medo e a incerteza sobre o futuro.

Muitos encontram apenas estruturas carbonizadas, pisos cobertos de entulho e a dolorosa perda de lembranças preciosas. O fogo atingiu severamente sete dos oito prédios do complexo residencial no distrito de Tai Po, que antes abrigava cerca de 4,6 mil pessoas. Desde então, os sobreviventes têm vivido em moradias temporárias, aguardando definições sobre suas residências permanentes e o andamento das investigações sobre as causas do desastre.

O retorno aos apartamentos, que agora se assemelham a cenários de destruição, oferece uma oportunidade para tentar resgatar objetos de valor afetivo. A Associated Press reportou que a visita limitada aos imóveis, com restrições de tempo e número de pessoas, tem sido especialmente difícil para os idosos, que compunham mais de um terço dos residentes do complexo. Conforme informação divulgada pelo g1, mais de 1,4 mil pessoas com 65 anos ou mais se registraram para retornar ao local, enfrentando a necessidade de subir escadas em prédios de 31 andares, já que os elevadores permanecem inoperantes.

A Busca por Memórias Entre os Escombros

Keung Mak, de 78 anos, um dos moradores que retornou, já esperava o pior. Uma foto enviada por uma assistente social antecipou a visão desoladora: tetos expostos com vergalhões de aço, pisos com azulejos quebrados e estruturas que necessitam de reforço. “Meu coração está pesado”, compartilhou Mak antes da visita ao seu apartamento, onde viveu por mais de 40 anos.

Para ele e sua esposa, Kit Chan, de 74 anos, a dor maior reside na perda de objetos sem valor financeiro, mas carregados de significado. Fotos do casamento de 50 anos atrás, cartas antigas do filho e uma vara de pescar são exemplos de memórias que parecem ter sido consumidas pelo fogo. A visita, que permite a entrada de apenas quatro pessoas por até três horas (ou uma pessoa em unidades mais danificadas), é um momento de confronto com a devastação.

Traumas Emocionais e a Luta por Justiça

O retorno ao complexo reabre feridas emocionais para muitos ex-residentes. Cyrus Ng, de 39 anos, que viveu no local com os pais por mais de uma década, relata que o período pós-incêndio foi marcado por insônia, raiva, tristeza e preocupação. Embora agora mais estável, Ng ainda luta para aceitar a magnitude do ocorrido.

Ng pretende usar a visita para recuperar documentos, fotos e roupas, além de registrar o estado do apartamento. Seu objetivo é usar essas imagens como argumento contra a proposta do governo de demolir os sete prédios afetados, pois parte das unidades não foi diretamente atingida pelo fogo. Um advogado representando a comissão independente que apura as causas do incêndio indicou que quase todos os equipamentos de segurança falharam devido a erro humano, segundo o g1.

O Futuro dos Moradores: Demolição ou Reforma?

O governo de Hong Kong considera a reforma dos sete edifícios destruídos como inviável, propondo a demolição e a recompra dos direitos de moradia dos proprietários, com oferta de realocação. Essa posição, baseada em uma pesquisa com moradores, enfrenta resistência de parte da comunidade.

Dados da investigação revelam que apenas metade dos aproximadamente 1,7 mil apartamentos nos sete prédios sofreu danos, em diferentes graus. Alguns moradores argumentam que a recuperação de parte das unidades seria possível, permitindo o retorno de alguns residentes. O medo de furtos também é uma preocupação, com a polícia tendo prendido três homens em março sob suspeita de roubo no local.

Vidas Afetadas, Mesmo em Prédios Intactos

Mesmo os moradores do único prédio que escapou do incêndio sentem o impacto da tragédia. Stephanie Leung, residente deste bloco, relata que a simples ideia de olhar para os prédios vizinhos onde amigos e ex-colegas morreram causa sofrimento. Ela deseja que seu edifício seja incluído no plano de reassentamento, mas defende o direito daqueles que desejam permanecer.

A situação em Hong Kong levanta questões complexas sobre segurança, reassentamento e o luto coletivo após um dos incêndios mais letais da história recente da cidade. A busca por respostas e por um novo lar continua para os sobreviventes, em meio a um cenário de destruição e incerteza.