Cuba enfrenta o mais severo racionamento de combustível em décadas, com famílias recorrendo a carvão e lenha para cozinhar.
Elizabeth Contreras*, aposentada de 68 anos, retira carvão de uma cozinha improvisada em sua casa, localizada em um município periférico a sudoeste de Havana. O frango que assa na grelha alimentará três famílias do bairro, evidenciando a solidariedade em tempos de escassez.
“Muita gente vem cozinhando assim há dias, pois a panela elétrica só pode ser usada sem corrente, e temos pouco gás”, relata Contreras à BBC News Mundo. A situação reflete uma crise energética que se agrava desde meados de 2024, com o país se aproximando de um abismo imprevisível de falta de combustível e energia elétrica.
O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, anunciou um plano extraordinário de economia de energia, alertando para “tempos difíceis”. A crise é atribuída, em parte, às medidas adotadas pelo governo dos Estados Unidos após a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, visando dificultar o acesso de Cuba ao petróleo, além de um recente incêndio em uma refinaria em Havana. Conforme informações divulgadas pela BBC News Mundo, o governo de Havana atribui este cenário ao embargo econômico imposto pelos Estados Unidos desde os anos 1960.
Retorno ao Passado: O “Período Especial” e a Memória da Escassez
A atual crise energética em Cuba evoca memórias do “Período Especial” dos anos 1990, após o colapso da União Soviética. Naquela época, a ilha, que dependia fortemente do apoio soviético, enfrentou um racionamento extremo de recursos e alimentos. O cozimento com carvão, longos apagões e problemas de transporte eram a realidade.
Contreras relembra que, nas últimas semanas, os cortes de eletricidade chegaram a 18 horas, uma situação semelhante à vivida há mais de três décadas. O plano de economia do governo cubano inclui o racionamento de combustível, priorização de trabalho remoto e aulas semipresenciais, resgatando o conceito de “opção zero” criado nos anos 1990 para um cenário de “zero petróleo”.
Impacto nas Relações Internacionais e Ajuda Humanitária
Os Estados Unidos, sob a ameaça de tarifas de importação, têm pressionado países que enviam petróleo para Cuba, especialmente a Venezuela e o México. Apesar disso, o México confirmou o envio de suprimentos alimentares como ajuda humanitária. O Brasil também avalia o envio de remessas com medicamentos e alimentos, embora sem definição sobre volumes ou prazos.
O professor Michael Bustamante, da Universidade de Miami, observa que, embora o PIB cubano atual seja menos frágil que nos anos 1990, a percepção de desigualdade é maior. A existência de lojas privadas com maior sortimento contrasta com a dificuldade de acesso para a maioria da população, gerando uma “desigualdade galopante”.
Sobrevivência Criativa e Desafios Cotidianos
Em meio à crise, a criatividade cubana se manifesta em tutoriais online sobre como cozinhar com lenha ou lavar roupas em rios. Jennifer Pedraza*, trabalhadora e estudante de 34 anos, acumula itens como lâmpadas e ventiladores recarregáveis, além de água, que também está em falta. Ela relata a dificuldade de locomoção, tendo deixado de fazer um exame universitário por não ter como chegar ao campus.
A preocupação com os filhos é evidente, com crianças privadas de atividades básicas como assistir a desenhos animados ou usar o telefone devido à falta de luz e internet. A situação afeta desproporcionalmente aqueles sem familiares no exterior ou empregos autônomos, que lutam com um salário médio mensal de cerca de US$ 14 (aproximadamente R$ 73), enquanto o custo de vida básico consome mais da metade dessa receita.
Incerteza Política e o Futuro de Cuba
A pressão dos Estados Unidos sobre Cuba levanta questionamentos sobre os objetivos de Washington, que podem variar desde forçar uma mudança de regime até provocar uma crise humanitária. O presidente Díaz-Canel expressou disposição para o diálogo, mas “sem pressões”.
Bustamante aponta que as medidas de asfixia econômica dos EUA historicamente não funcionaram para aproximar os países, mas sim para empobrecer a população. A incerteza sobre o futuro paira, com a população dividida entre a esperança de uma mudança e o temor de um agravamento da situação, em um impasse político que se arrasta por décadas.