Santa Cruz de la Sierra: O novo ‘hub’ do crime organizado na América do Sul
A cidade boliviana de Santa Cruz de la Sierra, conhecida por ser a mais rica e elitizada do país, tem se tornado um ponto nevrálgico para organizações criminosas internacionais, incluindo o Primeiro Comando da Capital (PCC). A localização estratégica, aliada a uma infraestrutura que favorece operações financeiras e logísticas, transformou a região em um refúgio para líderes de facções e um corredor importante para o tráfico de drogas.
A recente prisão de Sebastián Marset, líder do Primeiro Cartel Uruguaio (PCU), em março, evidenciou a importância de Santa Cruz como destino de foragidos. Marset, que viveu na Bolívia utilizando uma identidade falsa e chegou a jogar em um time de futebol local, mantinha laços estreitos com o PCC, chegando a aparecer em vídeos ostentando armamento pesado ao lado de membros da facção.
O caso de Marset não é isolado. Em maio do ano passado, Marcos Roberto de Almeida, o Tuta, um dos principais coordenadores de lavagem de dinheiro do PCC e procurado pela Interpol, foi preso em Santa Cruz após tentar renovar seus documentos com um registro falso. Essas capturas recentes refletem um padrão que consolida a cidade como um centro de operações para facções brasileiras e de outros países, conforme aponta o Ministério Público de São Paulo e especialistas ouvidos pela reportagem.
Santa Cruz: Um polo logístico e financeiro para o tráfico
Especialistas apontam que Santa Cruz de la Sierra se tornou um “hub logístico e financeiro para o tráfico”, segundo Rodrigo Chagas, professor da Universidade Federal de Roraima. A cidade oferece uma localização estratégica e infraestrutura que facilitam a atuação do crime organizado, permitindo que esses grupos se estabeleçam e prosperem.
A proximidade com o Brasil e o Paraguai, além de acesso a rios que conectam o país aos vizinhos, confere a Santa Cruz uma posição privilegiada. “É chave para grupos como o PCC terem acesso a portos, aeroportos e rotas de escoamento”, explica Chagas, destacando a importância da logística para movimentar toneladas de droga e dinheiro.
O crescimento econômico de Santa Cruz, impulsionado por investimentos privados, também facilita a lavagem de dinheiro, que pode ser disfarçada em negócios imobiliários e comerciais. O Grupo de Ação Financeira (GAFI) incluiu a Bolívia na lista de países com “deficiências estratégicas” no combate à lavagem de dinheiro, o que agrava o cenário.
A rota da cocaína e a transição de processamento na região
Embora Santa Cruz não seja uma grande produtora de folha de coca, a região tem se tornado um centro de processamento de drogas. As folhas chegam de áreas produtoras como o Chapare e são processadas em fábricas clandestinas em locais como Yapacaní, para depois serem enviadas para países vizinhos e, eventualmente, para a Europa.
Eduardo Gamarra, professor da Universidade Internacional da Flórida e autor de um relatório sobre o tema, afirma que o processamento da droga tem se deslocado para áreas rurais da fronteira de Santa Cruz. Autoridades bolivianas já identificavam Yapacaní, em 2019, como uma “base para refinar a pasta de coca e convertê-la em cloridrato de cocaína”.
Apesar de Yapacaní não ter grandes extensões de cultivo, a cidade concentra 37% da folha de coca comercializada na Bolívia, muitas vezes fora do mercado legal. A produção de cocaína que sai do Trópico de Cochabamba é transportada por pequenas aeronaves até hangares em Santa Cruz, de onde segue para outros países.
Desafios no combate ao crime organizado e a influência do PCC
A facilidade em obter documentos falsos e a corrupção de autoridades locais são fatores que contribuem para a permanência de membros do PCC na Bolívia, segundo o promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco. “O PCC domina a Bolívia”, afirma Gakiya, que investiga a facção há duas décadas.
Há indícios da formação de um núcleo da “Sintonia Final” do PCC em Santa Cruz, com o objetivo de expandir o tráfico. “A Bolívia é o principal fornecedor de cocaína para o PCC”, ressalta Chagas, destacando a proximidade com as áreas produtoras e um espaço considerado mais seguro em relação às autoridades de outros países.
A operação que resultou na captura de Marset, por exemplo, foi realizada sem a participação da Justiça, devido a suspeitas de vazamento de informações. “A operação para capturar Marset foi realizada sem a participação da Justiça. Isso explica a desconfiança que pode existir em relação a um setor da polícia e ao que resta do Judiciário na Bolívia”, argumenta Gamarra.
Novas estratégias e a esperança de mudança
O novo governo boliviano, liderado por Rodrigo Paz, tem buscado reverter o cenário. O país reatou laços com a Administração de Repressão às Drogas (DEA) dos Estados Unidos e aderiu ao “Escudo das Américas”, uma estratégia de segurança promovida pelos EUA. Além disso, foi firmado um acordo com o Brasil para intensificar a cooperação contra o crime organizado.
O vice-ministro de Substâncias Controladas da Bolívia, Ernesto Justiniano, afirma que o objetivo é enviar uma mensagem clara de que o país não é mais “território para o tráfico”. Segundo ele, a Bolívia “não é mais um país isolado, mas sim um país inserido no mundo, que não permitirá que as organizações do tráfico se estabeleçam”.
Resta saber qual será o impacto dessas novas medidas e da maior cooperação internacional na atuação de organizações criminosas como o PCC na Bolívia, que historicamente se beneficiaram de um ambiente propício para suas operações ilegais.