Brasil figura entre os países sul-americanos com maior endividamento público em relação ao PIB, segundo FMI. Entenda as causas e consequências.

O Brasil ostenta a terceira maior dívida pública em proporção ao seu Produto Interno Bruto (PIB) na América do Sul. O endividamento do país atinge 91,4% do PIB, ficando atrás apenas da Venezuela (138,5%) e da Bolívia (93,7%), conforme dados divulgados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Este cenário de alta dívida pública na região sul-americana não é isolado. Um levantamento aponta que cinco dos doze países sul-americanos apresentam dívidas superiores a 75% do PIB, com uma tendência de crescimento acentuada, especialmente após os impactos econômicos da pandemia de Covid-19.

A metodologia de cálculo da dívida pública pode variar, mas o indicador do FMI é amplamente utilizado em comparações internacionais por sua abrangência. Especialistas alertam que o endividamento crescente é um sinal de desequilíbrio nas contas públicas, com implicações diretas no crescimento econômico e na capacidade de investimento do país. As informações são de acordo com o Poder360.

Endividamento como Sinal de Alerta para a Gestão Pública

Para Luciano Nakabashi, professor de Economia da USP, a trajetória ascendente do endividamento público brasileiro é um forte indicativo de alerta sobre a gestão das finanças do governo. Ele explica que um aumento na dívida sugere que o governo está gastando mais do que arrecada, o que caracteriza uma poupança negativa.

Essa situação, segundo Nakabashi, pode levar à redução do investimento no país, visto que há menos recursos disponíveis para financiamento. Consequentemente, a tendência é de aumento das taxas de juros na economia no médio prazo, impactando o ambiente de negócios e o crescimento.

O cenário de endividamento elevado também afeta a confiança dos investidores e pode gerar maior incerteza em relação às finanças futuras do país. Isso, por sua vez, tende a pressionar as taxas de juros para cima, dificultando o acesso ao crédito e desestimulando o investimento produtivo.

Fatores Estruturais e Globais Pressionam a Dívida Brasileira

Diversos fatores estruturais e conjunturais contribuem para o elevado endividamento público no Brasil e na América Latina. A Constituição de 1988, ao ampliar os direitos e benefícios sociais, aumentou a demanda por gastos públicos. Além disso, o fim da hiperinflação em 1994, que antes gerava receita para o governo, contribuiu para o desequilíbrio fiscal.

O regime previdenciário brasileiro, historicamente considerado generoso, também exerce pressão significativa sobre as finanças públicas. Tiago Velloso, especialista em investimentos no Santander Brasil, ressalta que o avanço da dívida pública na região limita o espaço fiscal e tende a frear o crescimento econômico a longo prazo.

Quando a dívida pública cresce, uma parcela cada vez maior do orçamento é destinada ao pagamento de juros. Isso, segundo Velloso, diminui a capacidade do Estado de investir em áreas cruciais como infraestrutura, educação e políticas públicas que visam aumentar a produtividade.

Outro fator relevante são os juros reais historicamente elevados no Brasil, que encarecem o custo de manter a dívida pública. Somado a isso, o crescimento potencial da economia brasileira, em torno de 2% ao ano, é considerado relativamente baixo para um país emergente, tornando a dinâmica da dívida mais sensível.

Juros Globais e Incertezas Geopolíticas Agravam o Cenário

O aumento do endividamento na América Latina é impulsionado também pela alta dos juros globais, especialmente as taxas definidas pelo Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos. Taxas de juros mais altas no exterior elevam o custo de financiamento para os governos e encarecem o processo de rolagem das dívidas existentes.

No Brasil, a taxa básica de juros (Selic) em patamares elevados pressiona as contas públicas, pois uma parte significativa da dívida federal é indexada a essa taxa. Nos EUA, o Fed tem mantido os juros em níveis altos para combater a inflação, tornando os títulos norte-americanos mais atrativos.

Esse movimento global faz com que países emergentes precisem oferecer retornos maiores para atrair capital, o que dificulta a queda dos juros domésticos. A persistência de juros altos no Brasil eleva o custo da dívida pública e limita a capacidade de investimento.

As tensões geopolíticas globais, como conflitos no Oriente Médio, aumentam a incerteza e incentivam a migração de capital para economias consideradas mais seguras. Esse cenário pressiona ainda mais o custo de financiamento de países emergentes como o Brasil. A desvalorização cambial também contribui para aumentar o peso da dívida externa.