China blindada contra crise do petróleo: como o gigante asiático se preparou e qual seu ponto fraco em meio ao conflito no Oriente Médio
A guerra no Oriente Médio e as turbulências no fornecimento de petróleo colocam em xeque a segurança energética global. A China, maior importadora de petróleo do mundo, tem se preparado há anos para um possível choque no abastecimento, diversificando suas fontes e investindo massivamente em energias renováveis.
A interrupção da rota marítima estratégica no Estreito de Ormuz, provocada pela escalada de tensões, testa a resiliência dessas estratégias. Enquanto outros países asiáticos já sentem os efeitos com racionamento e preocupação com o esgotamento de reservas, Pequim parte de uma posição mais sólida.
Essa preparação, fruto de anos de diplomacia e planejamento estratégico, visa proteger a economia chinesa de riscos globais. No entanto, a China ainda enfrenta desafios para garantir a estabilidade de seus preços e o abastecimento de sua pujante indústria. Conforme informações divulgadas pela BBC, o país asiático consome entre 15 e 16 milhões de barris de petróleo por dia.
Reservas Estratégicas: Um Colchão de Segurança
A China aproveitou anos de preços baixos do petróleo para construir uma das maiores reservas estratégicas do mundo. Estimativas indicam que o país acumulou cerca de 900 milhões de barris, o equivalente a quase três meses de importação, segundo Ole Hansen, chefe de estratégias de matérias-primas do Saxo Bank. Outros números, como os da Universidade Columbia, chegam a 1,4 bilhão de barris.
Essa vasta reserva funciona como um “colchão substancial” em momentos de interrupção no fornecimento. Entre janeiro e fevereiro deste ano, a China aumentou suas importações em 16% em relação ao ano anterior, segundo a administração de alfândegas do país, demonstrando a continuidade da estratégia de acúmulo.
Mesmo com sanções dos EUA, o Irã se tornou um fornecedor crucial de petróleo barato para a China, com Pequim comprando mais de 80% das exportações iranianas, conforme relatado. Parte desse petróleo continua chegando ao país, armazenado em petroleiros no Mar do Sul da China, o que totaliza mais de 46 milhões de barris, segundo a análise da Kpler.
Energias Renováveis: A Aposta no Futuro e na Independência
Paralelamente ao acúmulo de petróleo, a China se tornou líder mundial em energia verde. A instalação acelerada de parques eólicos e solares tem transformado a matriz energética do país. Em 2025, a energia eólica, nuclear, solar e hidrelétrica já geravam mais de um terço da eletricidade chinesa, segundo o Escritório Nacional de Estatísticas de Pequim.
Atualmente, mais da metade da capacidade instalada de energia na China provém de fontes limpas. Essa transição ambiciosa, que vai além de motivações ambientais, protege a economia chinesa contra riscos globais, como os observados no conflito no Irã. Roger Fouquet, pesquisador em economia energética, destaca que a China teve a “sorte de ter iniciado seus investimentos em energia renovável 25 anos atrás” e agora colhe os frutos.
Os veículos elétricos também desempenham um papel fundamental. Representando pelo menos um terço dos carros novos vendidos no país, eles reduzem a dependência do petróleo. Roc Shi, da Universidade de Tecnologia de Sydney, explica que proprietários de veículos elétricos em Pequim “simplesmente não sentem o impacto na bomba de combustível quando aumenta a tensão no Oriente Médio”.
O Ponto Fraco: Custos e a Indústria Petroquímica
Apesar da robusta preparação, a economia chinesa não é imune à interrupção do abastecimento de petróleo. O encarecimento do petróleo pode impactar os custos de carregamento de veículos elétricos, caso os preços da eletricidade subam em decorrência do aumento dos combustíveis. Recentemente, os preços da gasolina e do óleo diesel registraram aumentos significativos.
Para as fábricas chinesas, o aumento do preço do petróleo eleva os custos da sua vasta indústria petroquímica, essencial para a produção de plásticos, fertilizantes e outros produtos químicos. Como a maior importadora de energia do mundo, a China inevitavelmente pagará um preço mais alto por barril durante a crise, um custo adicional que terá de ser absorvido.