Prefeita de Paris encerra mandato com transformação urbana histórica, priorizando pedestres e ciclistas em detrimento dos carros.

Anne Hidalgo se despede da prefeitura de Paris após 12 anos de gestão, período marcado por uma profunda revolução urbana. Sua administração focou em reduzir drasticamente a presença de carros, transformando ruas em espaços para pessoas e áreas verdes.

A capital francesa viu centenas de vias serem fechadas para veículos, priorizando ciclovias e o bem-estar dos pedestres. As margens do rio Sena, antes dominadas por avenidas, agora são áreas de lazer e circulação exclusiva para quem anda a pé.

Essa mudança de paradigma, que contrasta com a realidade de muitas metrópoles brasileiras, resultou em melhorias significativas na qualidade do ar e na mobilidade urbana. Hidalgo passará a faixa para Emmanuel Grégoire, seu aliado político, que venceu as eleições recentes. As informações são de Poliana Casemiro e da agência Reuters.

Um Legado Verde e Menos Poluente

Uma das principais metas de Anne Hidalgo foi preparar Paris para os desafios das mudanças climáticas. O setor de transportes, um grande emissor de poluentes, foi o ponto de partida para as reformas.

Desde 2015, a circulação de automóveis foi reduzida pela metade, com mais de 200 ruas tendo o tráfego totalmente proibido. O plano ambicioso visa chegar a 500 vias exclusivas para pedestres no futuro, representando uma em cada dez ruas da cidade.

Para desincentivar o uso do carro, dezenas de milhares de vagas de estacionamento foram removidas, e em muitos desses locais, foram plantadas árvores. Ao todo, 130 mil árvores foram adicionadas à paisagem parisiense durante a gestão Hidalgo.

A velocidade máxima permitida para carros na cidade foi drasticamente reduzida para 30 km/h. Além disso, medidas foram implementadas para desencorajar o uso de veículos pesados e mais poluentes.

Um exemplo recente é o aumento do valor do estacionamento para SUVs. Carros com peso igual ou superior a 1,6 tonelada pagam 18 euros por hora (aproximadamente R$ 100) na região central, podendo chegar a R$ 2,4 mil por um dia inteiro.

Paris de 15 Minutos: A Cidade ao Alcance

Em 2015, o urbanista Carlos Moreno, criador do conceito da “cidade de 15 minutos”, foi convidado a assessorar a prefeitura. A ideia central é que os moradores tenham acesso à maioria de suas necessidades básicas – como trabalho, comércio, lazer e serviços de saúde – a uma distância de caminhada ou bicicleta de até 15 minutos.

Esse conceito, inspirado em urbanistas como Jane Jacobs e Jan Gehl, visa fortalecer o senso de comunidade e reduzir a dependência de longos deslocamentos. A estrutura de Paris, com empreendimentos de uso misto já existentes, facilitou a implementação dessa visão.

A estratégia deu resultados notáveis: o tráfego de carros caiu mais de 60% desde 2002, e o uso de bicicletas mais que triplicou, segundo dados da prefeitura. A qualidade do ar melhorou significativamente, com quedas expressivas nas emissões de dióxido de carbono (35%) e material particulado fino (28%) entre 2012 e 2022.

A poluição por dióxido de nitrogênio também diminuiu impressionantes 40% no mesmo período, demonstrando o impacto positivo das políticas de mobilidade sustentável.

Controvérsias e Desafios da Gestão

Apesar das conquistas, Anne Hidalgo também enfrentou críticas e controvérsias ao longo de seus 12 anos. Pierre Chasseray, líder de um grupo de defesa dos motoristas, acusou Hidalgo de criar um “Muro de Berlim” entre os habitantes do centro e os moradores dos subúrbios, que dependem mais de carros.

A hashtag #saccageParis viralizou nas redes sociais, expondo problemas urbanos como obras intermináveis e lixo nas calçadas. Além disso, a dívida do município aumentou 42% desde 2020, atingindo cerca de 10 bilhões de euros.

Emmanuel Grégoire, o sucessor de Hidalgo, atribuiu parte do aumento da dívida à ambição excessiva da prefeita, afirmando que “fizemos muitas coisas ao mesmo tempo” e que ele teria escolhido um cronograma diferente para garantir melhor qualidade na implementação.

Um Novo Capítulo para Paris

A saída de Anne Hidalgo marca o fim de uma era de transformações radicais em Paris. A cidade agora se prepara para um novo ciclo, com o desafio de manter os avanços em sustentabilidade e qualidade de vida, ao mesmo tempo em que lida com as críticas e os desafios financeiros herdados.

A transição para Emmanuel Grégoire sinaliza a continuidade de algumas políticas, mas também a possibilidade de ajustes na abordagem e no ritmo das mudanças. O legado de Hidalgo, no entanto, já redefiniu o futuro da mobilidade urbana na capital francesa, inspirando debates em outras grandes cidades do mundo.