Investigadores devem rejeitar proposta do banqueiro Daniel Vorcaro; versão que atribui US$ 24 milhões a “Dark Horse” como mero patrocínio privado esbarra em evidências de desvio de dinheiro público e fraudes

Após a divulgação de um áudio em que chama Flávio Bolsonaro (PL) de “irmão”, o banqueiro Daniel Vorcaro apresentou à Polícia Federal (PF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR) uma nova versão de seu acordo de delação premiada. A principal aposta do delator é tentar blindar o filho do ex-presidente e o polêmico filme “Dark Horse” — uma produção de ultradireita que enaltece Jair Bolsonaro — alegando que se tratava apenas de um patrocínio privado, sem irregularidades.

A proposta ampliada, que veio após a recusa da primeira versão pelas autoridades, detalha a promessa de US$ 24 milhões destinados ao filme, dos quais US$ 10 milhões teriam sido enviados ao fundo Havengate. Vorcaro também incluiu na delação o nome do ex-ministro da Casa Civil Ciro Nogueira (PP-PI), apontado como articulador político do bolsonarismo.

No entanto, segundo informações da PF, a narrativa do banqueiro contraria frontalmente as provas já colhidas até agora. As investigações indicam que o dinheiro usado no suposto patrocínio tem origem em esquemas mais amplos: transferências de recursos públicos de governos bolsonaristas (como os de Cláudio Castro, no Rio, e Ibaneis Rocha, no Distrito Federal), além de fraudes em empréstimos consignados via Credcesta.

Vorcaro teria decidido incluir “Dark Horse” na delação somente após a revelação do áudio em que Flávio Bolsonaro cobra o banqueiro sobre valores que não haviam sido repassados ao fundo. Curiosamente, mesmo com Vorcaro usando tornozeleira eletrônica, Flávio o visitou um dia antes de anunciar sua pré-candidatura à Presidência.

O novo acordo será analisado nesta semana e, de acordo com fontes, deve ser rejeitado novamente. A desconfiança dos investigadores se estende também à promessa de ressarcimento feita por Vorcaro, que varia entre R$ 40 e R$ 60 bilhões — valor próximo ao que o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) precisou desembolsar para cobrir prejuízos do falido Banco Master. A dúvida principal é: de onde o banqueiro tiraria esse montante?

Entre os maiores prejudicados estão fundos de previdência estaduais e municipais, como o RioPrevidência (que perdeu R$ 3 bilhões), além de fundos do Amapá (R$ 400 milhões), Amazonas (R$ 50 milhões) e outras cidades. O Ministério da Previdência já identificou ao menos 18 fundos com aplicações no Banco Master, totalizando mais de R$ 1 bilhão somente nessas operações.

Enquanto Vorcaro tenta costurar um acordo que o proteja e acoberte aliados poderosos, a PF segue apontando coincidências temporais entre os aportes bilionários e reuniões do banqueiro com o ex-governador Cláudio Castro, também alvo da investigação. As evidências, segundo os investigadores, falam mais alto do que a nova versão do delator.