O uso indiscriminado de corticoides, muitas vezes adquiridos sem receita médica, tem sido apontado como um fator de risco crescente para o desenvolvimento e agravamento de casos de glaucoma. O alerta vem de especialistas e sociedades médicas, que buscam maior conscientização e controle sobre a prescrição e venda dessas substâncias.
O glaucoma é uma doença ocular séria que afeta o nervo óptico, geralmente causada pela elevação da pressão dentro do olho. Sem tratamento adequado, a condição pode progredir e resultar em perda irreversível da visão, levando à cegueira. Estima-se que a doença afete cerca de 1,7 milhão de brasileiros, com uma prevalência significativa em indivíduos acima de 40 anos.
Tanto colírios para irritação ocular quanto medicamentos orais e pomadas contendo corticoides podem desencadear o glaucoma se utilizados de forma inadequada e sem acompanhamento profissional. A rápida sensação de alívio proporcionada por esses medicamentos leva muitos a se automedicarem repetidamente, ignorando os riscos associados ao uso prolongado.
Entendendo o Mecanismo do Dano Ocular
Os corticoides são amplamente utilizados por suas potentes propriedades anti-inflamatórias, sendo eficazes no tratamento de diversas condições como alergias, sinusites, dores inflamatórias e irritações oculares. No entanto, o uso contínuo e sem supervisão médica pode interferir no funcionamento natural dos olhos. Eles dificultam a drenagem do humor aquoso, o líquido que circula no interior do globo ocular.
Esse acúmulo de líquido eleva a pressão intraocular. Quando essa pressão se mantém alta por um período prolongado, pode causar lesões permanentes no nervo óptico, configurando o quadro de glaucoma. A situação é ainda mais crítica para pacientes que já possuem a doença, pois cerca de 90% deles são sensíveis ao corticoide, o que pode acelerar drasticamente a progressão do dano visual.
Riscos Ampliados e Alerta de Saúde Pública
Além dos riscos oftalmológicos, o uso excessivo de corticoides pode acarretar uma série de outros problemas de saúde. Entre eles, destacam-se o aumento da glicose sanguínea, descontrole do diabetes, ganho de peso, retenção de líquidos, hipertensão, enfraquecimento ósseo, maior suscetibilidade a infecções e alterações hormonais.
Diante desse cenário, a Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG), em parceria com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica (SBOP), encaminhou um alerta às agências reguladoras e órgãos de saúde. A nota pública visa chamar a atenção para os perigos do uso indiscriminado de fórmulas com corticoides pela população, classificando o problema como uma questão de saúde pública.
Busca por Maior Rigor e Conscientização
Roberto Vessani, presidente da SBG, ressalta a gravidade da situação e a necessidade de medidas mais rigorosas. As entidades médicas defendem que o uso de corticoides, em todas as suas formas, passe a ter um controle similar ao que já existe para os antibióticos, que exigem duas vias de receita médica, uma retida pela farmácia.
Essa medida visa não apenas garantir que a medicação seja prescrita por um profissional de saúde, mas também dificultar a compra e o autotratamento por parte dos pacientes. A colaboração com políticos e a realização de campanhas de informação são estratégias adotadas para sensibilizar tanto a população quanto outros profissionais da área médica sobre os riscos oculares associados ao uso crônico de corticoides.
Grupos de Risco e Recomendações Específicas
Pacientes com mais de 40 anos compõem um grupo de risco, pois a prevalência de glaucoma aumenta significativamente com a idade. Pessoas com condições de saúde crônicas que necessitam de uso prolongado de corticoides, como idosos, merecem atenção especial. Em crianças alérgicas, o uso crônico de colírios com corticoides pode levar ao aumento da pressão ocular ou ao desenvolvimento precoce de catarata.
As três entidades oftalmológicas recomendam o monitoramento regular da pressão intraocular em pacientes que utilizam corticoides por longos períodos, especialmente em crianças e em indivíduos pertencentes a grupos de risco. A comunicação entre as especialidades médicas e a conscientização sobre os potenciais efeitos adversos são fundamentais para prevenir danos à visão e garantir a saúde ocular da população.