Desafios Gigantescos na Vacinação Indígena: A Jornada do Zé Gotinha no Alto Rio Purus
Levar vacinas a comunidades indígenas isoladas é uma missão complexa que exige dedicação e estratégia. No Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Purus, profissionais de saúde enfrentam desafios únicos para garantir a imunização de cerca de 11 mil pessoas, distribuídas em 155 aldeias nos estados do Acre, Amazonas e Rondônia.
A diversidade cultural e linguística, aliada às dificuldades de acesso, torna cada campanha de vacinação uma operação de guerra. O respeito às tradições e a adaptação às realidades locais são fundamentais para o sucesso, como explica Evangelista Apurinã, coordenador do DSEI.
“Se a gente não souber desses detalhes, e de fato entender como é a estrutura de cada povo, a gente vai estar colocando a carroça na frente dos bois, e não vai conseguir fazer o serviço”, ressalta Apurinã, destacando a importância do planejamento minucioso para levar uma das principais estratégias de saúde pública, a vacinação, aos territórios indígenas.
A Logística da Imunização em Terras Indígenas
O acesso às 155 aldeias atendidas pelo DSEI Alto Rio Purus varia drasticamente. Dependendo da época do ano e das condições climáticas, o transporte pode ser feito por caminhonete, barco, quadriciclo, bote ou até helicóptero. Essa complexidade logística se estende à manutenção da cadeia de frio das vacinas.
Para garantir que os frascos de vacina permaneçam refrigerados entre 2°C e 8°C, essenciais para sua eficácia, equipes utilizam freezers em barcos, caixas térmicas e bobinas de gelo. O trabalho é itinerante, com profissionais passando até 40 dias fora de suas bases para atender as comunidades.
Kislane de Araújo Dias, enfermeira responsável técnica pela área de Imunizações do DSEI, detalha que todo o planejamento se baseia em um censo vacinal. Essa planilha detalhada acompanha os dados de todas as famílias, permitindo que as equipes monitorem as necessidades de vacinação em cada incursão.
“É assim que a gente sabe também quantas doses de cada vacina vamos usar em cada aldeia, para transferir só esse quantitativo exato do estoque para a caixa de movimento diário”, afirma Kislane. As equipes geralmente estabelecem um local central na aldeia para o atendimento, mas realizam busca ativa, indo de casa em casa se necessário.
Respeito Cultural e Comunicação são Chaves para o Sucesso
Além dos desafios logísticos, as peculiaridades culturais de cada etnia exigem uma abordagem diferenciada. Evangelista Apurinã explica que é preciso negociar com grupos como os Madijá e Kulina, entendendo seus ritmos e limitações de tempo para permanência em um local.
A estrutura política de cada povo também é crucial. Apurinã alerta que, no caso dos Jamamadi, por exemplo, acertar com um cacique que não pertence ao clã principal pode invalidar o acordo. “Você pode sair do território achando que está tudo combinado e, quando voltar lá, vai ver que voltou à estaca zero”, adverte.
Evelin Plácido, enfermeira com vasta experiência em territórios indígenas e hoje à frente da CapacitaImune, reforça a importância de conhecer a estrutura de cada povo. “Ao contrário do contexto urbano em que as pessoas vão até a imunização, nas áreas indígenas é a vacina que precisa ir até as pessoas”, pontua.
Ela também destaca a necessidade de capacitar os profissionais em comunicação. “Não adianta você ser um profissional excelente, ter o melhor equipamento, conhecer tudo das vacinas, entender sobre técnicas de aplicação, se você não souber se comunicar com as pessoas”, enfatiza.
As equipes são orientadas a realizar rodas de conversa para explicar à comunidade que o imunobiológico confere proteção contra doenças, respeitando a susceptibilidade dos povos indígenas. Essa abordagem dialogada é fundamental para a adesão e confiança.
Capacitação Contínua e Adaptação do Calendário Vacinal
A farmacêutica MSD tem oferecido capacitações para profissionais que atuam na saúde indígena e em áreas remotas. O curso aborda normas técnicas atualizadas, armazenamento, aplicação e descarte de vacinas, além de bases imunológicas e efeitos adversos, como explica Aline Okuma, gerente-médica de vacinas da empresa.
“A gente identifica muito que algumas práticas não são harmonizadas e acho que essa é a grande valia desse curso: harmonizar práticas, adaptando para o cenário local”, comenta Okuma sobre a importância de uniformizar procedimentos.
O calendário vacinal, que inclui mais de 20 vacinas e está em constante atualização, apresenta desafios adicionais. Grupos vulneráveis, como os indígenas, seguem esquemas diferenciados, com vacinação anual contra influenza e COVID-19, independentemente da idade.
Um exemplo recente da urgência da vacinação ocorreu em 2024, quando um surto de influenza em uma aldeia amazônica, agravado pela seca que dificultou o acesso das equipes de saúde, resultou na morte de duas crianças. Um plano de contingência foi ativado para antecipar a vacinação na região.
Além disso, povos indígenas em áreas de difícil acesso, assim como populações ribeirinhas e quilombolas, estão sendo vacinados contra a raiva, devido ao maior risco de exposição a animais silvestres.
Natália Diniz, profissional que atua no Polo da cidade de Boca do Acre, no Amazonas, e participou do curso em Rio Branco, relata a satisfação em levar a oportunidade de um futuro com saúde às comunidades. “Quando a gente faz vacina nos territórios, não é só uma vacina. A gente está dando oportunidade para aquela pessoa ter um futuro com saúde e feliz”, conclui.