Guiana colhe frutos inesperados da guerra no Irã, tornando-se um novo petroestado com crescimento acelerado, mas enfrenta desafios internos.
Enquanto o mundo lida com as consequências da guerra entre os EUA e Israel contra o Irã, como inflação, aumento dos preços da gasolina e ameaças ao abastecimento alimentar, uma nação sul-americana observa um cenário diferente. A Guiana, emergindo como um novo petroestado, tem visto suas receitas dispararem devido ao fechamento do Estreito de Ormuz.
Esse fenômeno econômico é resultado de uma combinação de fatores: o aumento planejado na produção de petróleo e a valorização global do barril, impulsionada pelas tensões no Oriente Médio. A Guiana, com sua produção de hidrocarbonetos iniciada há apenas seis anos, já se posiciona como uma das maiores produtoras de petróleo da América do Sul.
Segundo dados e análises de especialistas, como Sidney Armstrong, professor de Economia da Universidade da Guiana, e Roxanna Vigil, pesquisadora do Council on Foreign Relations, a Guiana experimenta a economia de crescimento mais rápido do mundo. Conforme informações divulgadas por fontes como o Banco Mundial e a revista The Economist, as receitas do petróleo se tornaram o principal motor do país, com projeções de aumento expressivo, impactando diretamente o orçamento estatal e as reservas nacionais.
Produção de Petróleo da Guiana Dispara com Preços em Alta
A produção de petróleo bruto da Guiana, que já ultrapassa 920.000 barris por dia e segue em tendência de alta, deveria atingir cerca de 892.000 barris diários até dezembro de 2025, segundo projeções anteriores. No entanto, a guerra no Irã elevou o preço do barril de petróleo Brent, que antes do conflito custava em torno de US$ 62, para uma média diária de cerca de US$ 108 desde o início das hostilidades, conforme dados da Administração de Informação Energética dos EUA (EIA).
Essa elevação nos preços, somada ao aumento da produção, tem gerado um fluxo de receita adicional significativo. A revista The Economist aponta que as receitas petrolíferas da Guiana aumentaram em US$ 370 milhões por semana desde o início da guerra no Irã, chegando a US$ 623 milhões. Luiz Hayum, analista sênior da consultoria Wood Mackenzie, estima que as receitas governamentais podem aumentar em US$ 4 bilhões este ano em comparação com as projeções iniciais de 2026.
Estrutura de Contratos e Gestão de Receitas: Desafios para a Guiana
Apesar do boom, a maior parte da receita gerada pelo petróleo não vai diretamente para os cofres do governo guianense. Os contratos de exploração estabelecem que 75% do dinheiro é destinado à recuperação do investimento pelas empresas petrolíferas. A Guiana recebe 12,5% de lucro e 2% de royalties, totalizando 14,5%. Somente após a recuperação do investimento inicial, a Guiana passará a receber 50% dos lucros, mais os 2% de royalties.
O aumento dos preços do petróleo, contudo, acelera o processo de recuperação de investimento para as empresas, o que pode antecipar os benefícios para o governo. Contudo, Sidney Armstrong alerta que, caso novas aplicações financeiras sejam necessárias, a fórmula atual de partilha de lucros permanecerá até que esses fundos sejam recuperados pelas empresas.
Adicionalmente, o governo da Guiana não tem controle total sobre os recursos. As receitas são depositadas em um Fundo de Recursos Naturais, regulamentado por lei para garantir um crescimento estável e controlado, evitando gastos excessivos e assegurando que os fundos sejam alocados para prioridades de desenvolvimento, além de preservar recursos para futuras gerações. Em março deste ano, o fundo detinha aproximadamente US$ 3,8 bilhões.
Benefícios Tangíveis e Desafios Sociais para o Povo Guianense
O boom do petróleo, impulsionado pela situação no Irã, tem se traduzido em benefícios concretos para a população guianense. Sidney Armstrong destaca o aumento da receita, o fortalecimento das reservas do Fundo de Recursos Naturais e a aceleração de projetos de infraestrutura, como a construção de estradas, escolas e centros de saúde comunitários.
Roxanna Vigil ressalta a importância desses projetos para a infraestrutura básica do país. Ela menciona que, apesar de grande parte da população ainda viver na pobreza, há agora um plano e os recursos necessários para mudar essa realidade. Como um exemplo de benefício direto, o governo concedeu recentemente um bônus de US$ 500 a todos os guianenses com mais de 18 anos.
Impactos Negativos da Guerra: Inflação e Aumento do Custo de Vida
A Guiana, no entanto, não está imune aos efeitos negativos da crise no Oriente Médio. A inflação tem aumentado, diminuindo o poder de compra real da população. Os preços mais altos nos postos de gasolina afetam o transporte, e a Guiana, como parte do sistema global, sente os reflexos negativos nas cadeias de suprimentos.
O custo dos alimentos aumentou significativamente, cerca de 25% em um curto período. Isso se deve, em parte, ao encarecimento de insumos agrícolas, como fertilizantes. A preocupação com a gestão dos recursos gerados pelo boom do petróleo também é evidente, com relatos de atrasos e custos adicionais em projetos importantes, como um plano para transportar gás para gerar eletricidade no continente.
Sidney Armstrong também aponta para o aumento da desigualdade no país, com salários reais da maioria dos guianenses inalterados. A persistência da pobreza e da falta de moradia evidencia que, apesar do crescimento econômico acelerado, o desenvolvimento humano na Guiana ainda tem um longo caminho a percorrer.