Trump apresenta “Conselho da Paz” em Davos, desafiando o papel da ONU e propondo reconstrução de Gaza
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou oficialmente nesta quinta-feira (22) seu “Conselho da Paz” durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça. A iniciativa, voltada para a supervisão da paz e reconstrução na Faixa de Gaza, foi apresentada com fortes críticas à Organização das Nações Unidas (ONU), levantando preocupações na comunidade internacional sobre um possível enfraquecimento da atuação do órgão multilateral.
Em um evento que contou com a presença de cerca de 30 líderes mundiais, Trump expressou sua visão para o novo conselho, que ele presidirá vitaliciamente. A proposta americana inclui um ambicioso plano de reconstrução para Gaza, batizado de “Nova Gaza”, que prevê o desenvolvimento do território com a construção de arranha-céus.
A iniciativa, detalhada em um estatuto obtido pela agência Reuters, prevê que o conselho terá amplos poderes, com Trump detendo o poder de veto. Países que desejarem um assento permanente no órgão deverão contribuir com US$ 1 bilhão, cujos recursos serão administrados pelo presidente dos EUA. Conforme informações divulgadas pelo governo americano, convites foram enviados a lideranças de aproximadamente 60 países, com alguns já confirmando participação, como Argentina, Israel e Arábia Saudita.
Críticas à ONU e busca por um “organismo mais ágil”
Durante o lançamento, Donald Trump reiterou suas críticas à ONU, sugerindo a necessidade de alternativas mais eficazes. O rascunho do estatuto do Conselho da Paz faz uma menção velada à organização, afirmando que “um organismo internacional de consolidação da paz mais ágil e eficaz” é necessário e que é preciso “coragem de abandonar abordagens e instituições que falharam com demasiada frequência”.
Essa postura é vista com receio por diplomatas e analistas internacionais. Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV, aponta que a estrutura proposta concentra poder excessivo em uma única liderança, a do presidente americano, o que pode gerar desequilíbrios. A falta de clareza sobre a participação palestina no conselho também levanta questionamentos sobre a efetividade do órgão, segundo o apresentador Marcelo Lins.
O plano “Nova Gaza” e a estrutura do Conselho da Paz
O plano de reconstrução de Gaza, apresentado pelo genro de Trump e conselheiro Jared Kushner, visa transformar a Faixa de Gaza em uma zona desmilitarizada e próspera. A criação do Conselho da Paz estava prevista na segunda fase de um acordo de paz mediado pelos EUA e assinado por Israel e o Hamas em outubro do ano passado.
O conselho terá um papel consultivo, assessorando um comitê de transição responsável pela administração provisória de Gaza. A Casa Branca anunciou que a entidade “ajudará a apoiar uma governança eficaz e a prestação de serviços de alto nível que promovam a paz, a estabilidade e a prosperidade do povo de Gaza”.
Lula e a posição brasileira diante do convite
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi convidado a integrar o Conselho da Paz, mas ainda não respondeu ao convite. A decisão brasileira é delicada, considerando as críticas de Lula às operações militares de Israel em Gaza e sua defesa pela criação de um Estado palestino. A aceitação do convite poderia gerar cobranças por coerência, enquanto a recusa poderia afetar a relação com os Estados Unidos.
Fontes indicam que Lula só deve avaliar a proposta na próxima semana. Outros países, como a Noruega, Suécia e Itália, já recusaram o convite, enquanto Rússia, China, França e Alemanha estão entre os que ainda avaliam a participação.
Membros fundadores e financiamento do conselho
A Casa Branca divulgou os nomes de sete membros fundadores nomeados por Trump, incluindo Marco Rubio, Tony Blair, Steve Witkoff, Jared Kushner, Ajay Banga (presidente do Banco Mundial), Marc Rowan e Robert Gabriel. A responsabilidade de cada membro ainda não foi detalhada.
O estatuto do conselho prevê mandatos de três anos para os membros, com a possibilidade de renovação pelo presidente. No entanto, a contribuição de mais de US$ 1 bilhão no primeiro ano garante a permanência fixa no órgão, cujos recursos serão administrados pelo presidente dos Estados Unidos, em uma estrutura que levanta debates sobre transparência e governança.