Tarifaço americano pode impulsionar exportações brasileiras para a China, mas analistas alertam para barreiras e limites de crescimento.
O recente tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros pode forçar empresas a buscar novos mercados, com a China, o maior parceiro comercial do Brasil, surgindo como uma alternativa natural. No entanto, especialistas apontam que, apesar do potencial, o país asiático não será capaz de absorver a totalidade das perdas com o mercado americano.
A diferença no perfil das exportações brasileiras para cada país, somada à própria capacidade industrial chinesa e a barreiras comerciais, limitam uma substituição rápida e completa. A dependência das commodities na pauta de exportação para a China e a natureza dos produtos afetados pelas tarifas americanas são fatores cruciais nessa análise.
No ano passado, a China importou **US$ 99,94 bilhões** em produtos brasileiros, mais que o dobro do valor comprado pelos EUA (US$ 37,7 bilhões). Já no primeiro semestre de 2026, as exportações para o mercado chinês atingiram um recorde de US$ 58,32 bilhões. Contudo, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a China não é uma solução imediata para a maioria dos produtos industrializados afetados pelo tarifaço americano.
O Perfil das Exportações: Commodities versus Industrializados
Rodrigo Giraldelli, especialista em comércio China-Brasil e CEO da China Gate, explica que o tarifaço americano incide principalmente sobre produtos manufaturados, máquinas e equipamentos. Nesse cenário, a China, que é uma grande produtora e exportadora desses mesmos tipos de bens, apresenta limitações para absorver um volume maior dessas exportações brasileiras.
Enquanto os Estados Unidos importam do Brasil uma gama maior de bens industrializados, como aeronaves e produtos siderúrgicos transformados, a pauta de exportações para a China é majoritariamente composta por commodities. Soja, petróleo bruto, minério de ferro e carnes representam aproximadamente 90% das vendas brasileiras para o gigante asiático.
Vera Kanas, especialista em comércio internacional, reforça que a China oferece mais oportunidades para produtos agrícolas e minerais do que para bens industrializados. Essa concentração em poucas commodities, muitas das quais nem foram diretamente atingidas pelas tarifas americanas recentes, restringe a capacidade de empresas que vendem produtos industriais para os EUA migrarem para o mercado chinês.
Barreiras e Desafios no Mercado Chinês
Além da diferença no perfil de consumo, o mercado chinês impõe suas próprias restrições. Entre elas, destacam-se cotas tarifárias para produtos agropecuários, exigências sanitárias rigorosas e regras específicas para habilitação de exportadores. Desde janeiro de 2026, por exemplo, a China passou a aplicar cotas e sobretaxas sobre a carne bovina brasileira, com um limite anual de 1,1 milhão de toneladas, e um imposto de 55% sobre o volume excedente.
A ausência de um acordo de livre comércio entre Brasil e China significa que os produtos brasileiros continuam sujeitos às tarifas de importação chinesas, além de outras exigências regulatórias. As tarifas na China variam por produto, sendo geralmente mais baixas ou zeradas para commodities estratégicas como soja (cerca de 3%) e minério de ferro (0%), enquanto produtos industrializados enfrentam taxas mais elevadas.
A Economia Chinesa e as Oportunidades Futuras
O momento atual da economia chinesa também representa um fator limitador. O crescimento do PIB chinês no segundo trimestre de 2026 foi de 4,3%, abaixo da meta governamental, e o país enfrenta uma crise no setor imobiliário e um consumo doméstico enfraquecido. Aumentar excessivamente a dependência do mercado chinês, segundo especialistas, eleva a vulnerabilidade do Brasil a uma desaceleração mais acentuada.
Apesar dos desafios, há oportunidades. O 15º Plano Quinquenal chinês prioriza setores como inteligência artificial, semicondutores, veículos elétricos e transição energética, o que pode aumentar a demanda por minerais críticos abundantes no Brasil, como níquel, cobre e terras raras. Investimentos chineses também têm se voltado para energia renovável e mobilidade elétrica.
Diversificação como Estratégia Principal
Especialistas apontam que o principal efeito do tarifaço americano pode ser acelerar a diversificação das exportações brasileiras, em vez de aumentar a dependência da China. O novo cenário fortalece negociações do Mercosul com outros parceiros e ressalta a importância de acordos como o com a União Europeia.
Wagner Pagliato, professor, defende que a estratégia mais segura é ampliar o número de destinos para as exportações brasileiras. A China continuará sendo um parceiro fundamental, mas a diversificação reduz a exposição do Brasil tanto a mudanças na política comercial americana quanto a riscos de desaceleração econômica chinesa.
A adaptação inicial das empresas brasileiras tende a ser de ajustes comerciais para tentar preservar as vendas aos EUA, como renegociação de preços e condições. O desenvolvimento de novos mercados, como a China, não acontece instantaneamente, e a busca por alternativas é um processo contínuo, mas não imediato para a maioria dos setores afetados.