A coragem de Jehanne: uma luta por justiça na França medieval desafia preconceitos
Um caso de violência sexual ocorrido em 1472 na cidade de Dijon, França, ganha destaque em um novo livro que reescreve a história de uma sobrevivente. A obra “Justiça para Jehanne”, da historiadora Sara McDougall, mergulha nos registros de uma investigação judicial para apresentar um relato surpreendente sobre a busca por justiça por parte de Jehanne, uma mulher grávida que ousou denunciar seus agressores.
A narrativa desafia concepções pré-estabelecidas sobre a vida das mulheres e o sistema de justiça na Idade Média, revelando uma realidade mais complexa do que se imaginava. A história de Jehanne, detalhada pela historiadora, demonstra que, mesmo em um período considerado sombrio, havia mecanismos para que vítimas de violência buscassem reparação, e que a sociedade, em certa medida, apoiava essas denúncias.
Os registros da investigação, que incluem o depoimento de Jehanne e interrogatórios detalhados, foram meticulosamente analisados por McDougall. Conforme divulgado pela BBC, a pesquisa de McDougall contrasta com visões anteriores, como a apresentada por Jacques Rossiaud em “A prostituição medieval”, sugerindo que nem todas as mulheres que sofriam violência sexual eram automaticamente marginalizadas ou forçadas à prostituição. A história de Jehanne é um testemunho da resiliência e da busca por dignidade em tempos difíceis.
O ataque brutal em Dijon
Em 3 de janeiro de 1472, Jehanne, uma mulher em estado avançado de gravidez, foi vítima de um ataque violento por mercenários em Dijon. Ela relatou o crime no dia seguinte ao investigador municipal Jaques Borestel. A agressão ocorreu após dois homens tentarem forçá-la a acompanhá-los, recrutando em seguida mercenários quando ela se recusou.
Segundo o relato de Jehanne, os agressores a arrastaram para um campo e a atacaram, zombando de sua gravidez e afirmando que o filho que esperava era ilegítimo por ser de um padre. Ela descreveu a resistência que ofereceu na neve, o medo pela saúde do bebê e a intensa violência sofrida. A investigação subsequente, liderada por Borestel, buscou esclarecer os fatos e identificar os responsáveis, apesar das circunstâncias adversas da época.
A investigação e as revelações sobre Jehanne
Jaques Borestel iniciou uma investigação imediata, entrevistando Jehanne no dia seguinte ao ataque. Ela detalhou a agressão e forneceu informações sobre os agressores, dando à luz uma menina um dia após o depoimento. A decisão de Jehanne em denunciar foi notável, considerando o contexto de impunidade frequente para crimes na época.
Com base nas informações de Jehanne, Borestel conseguiu prender parte dos mercenários. Durante os interrogatórios, os homens negaram o crime, mas após um confronto direto com Jehanne e a aplicação de tortura a um deles, todos confessaram. A cidade de Dijon buscou punir os agressores com a morte, mas surgiu um obstáculo: os homens, por serem mercenários, estavam sob a jurisdição do duque.
A complexidade da identidade e a busca por credibilidade
Enquanto a cidade pressionava por justiça, as autoridades ducais recomendaram a libertação dos mercenários. Em paralelo, uma nova investigação foi aberta, focada na própria Jehanne, para avaliar sua credibilidade. O objetivo era determinar se ela era uma “mulher honesta” ou de “má reputação”.
Descobriu-se que Jehanne havia mentido sobre seu estado civil. Seu marido a havia abandonado anos antes para lutar na guerra. Ela revelou ter tido um relacionamento com um padre, com quem teve dois filhos, e que, após o abandono do marido, “era melhor dispor do próprio corpo para ganhar a vida do que recorrer a roubar as pessoas”. Essa confissão expôs a complexa realidade sexual e moral da época, onde relações antes do casamento e a prostituição, embora teoricamente condenadas, eram frequentemente toleradas.
O desfecho judicial e o legado de Jehanne
Apesar das revelações sobre sua vida pessoal, os promotores decidiram manter o processo contra os mercenários, considerando o fato de ela ter tido um filho com um padre irrelevante para a gravidade do crime de agressão. No entanto, os mercenários foram libertados pelas autoridades ducais, que alegaram que eles estavam sob a lei eclesiástica, um argumento considerado absurdo pela cidade.
O destino final de Jehanne permanece incerto, com a possibilidade de ter se tornado prostituta, como outras mulheres de nome semelhante em Dijon na época. Contudo, sua história, preservada em documentos judiciais, é um marco de sua coragem. A historiadora Sara McDougall destaca a admiração que sente por Jehanne, ressaltando sua capacidade de se defender e de se ver como uma pessoa com agência. “Nessa sociedade medieval, não existia — pelo menos até onde pude descobrir — o costume de culpar ou envergonhar a vítima”, afirma McDougall, sublinhando que mulheres podiam denunciar crimes sem a exigência de serem perfeitas. Jehanne conseguiu denunciar um crime, ser levada a sério e, em certa medida, obter justiça, um feito notável para seu tempo.