Selo de Acurácia Eleitoral: Proposta de Kassio no TSE Gera Críticas e Debate Sobre o Papel das Pesquisas
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, propôs a criação de um “selo de acurácia eleitoral” para premiar institutos de pesquisa que apresentem maior acerto nos resultados das eleições. A iniciativa, apresentada em reunião com representantes de 16 institutos, visa, segundo o ministro, “celebrar a excelência técnica” e incentivar a inovação metodológica.
No entanto, a proposta foi recebida com ceticismo e críticas por parte de especialistas e entidades do setor. A principal objeção reside na premissa de que pesquisas eleitorais devem “acertar” resultados, o que, para muitos, confunde a natureza desses levantamentos, que retratam o momento e não preveem o futuro.
A minuta da proposta foi distribuída aos institutos para que apresentem suas considerações até sexta-feira (17). A reunião ocorreu após a controvérsia envolvendo a censura imposta por Kassio a uma pesquisa do Atlas/Bloomberg, que mostrou queda nas intenções de voto de Flávio Bolsonaro. Conforme apurado, a medida é vista por alguns como uma tentativa de Kassio de superar o desgaste com essa decisão.
A Natureza das Pesquisas Eleitorais em Debate
Luciana Chong, diretora do Datafolha, criticou veementemente a proposta, afirmando que a iniciativa é “inaceitável”. Ela ressaltou que o objetivo das pesquisas “não é prever o resultado de uma eleição”, mas sim “retratar, por meio de métodos estatísticos reconhecidos, as intenções de voto existentes no momento em que são realizadas”.
Chong alertou para o perigo de confundir pesquisa com previsão, um “erro comum entre pessoas mal informadas sobre a ciência estatística”, que, segundo ela, “não deveria ser uma premissa admitida na mais alta corte eleitoral do país”. A minuta do TSE prevê “reconhecer e valorizar empresas de pesquisa eleitoral cujas estimativas apresentem maior aderência aos resultados oficiais”.
Críticas de Especialistas e Associações do Setor
A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) também criticou a proposta, argumentando que “exigir que uma pesquisa ‘acerte’ o resultado é confundir ciência com bola de cristal”. A entidade alertou que a medida poderia criar “incentivos perversos”, levando institutos sem rigor metodológico a ajustarem seus números na reta final apenas em busca do selo.
O cientista político Antonio Lavareda, presidente de honra da Abrapel, classificou a proposta como partindo de uma premissa equivocada. “Pesquisa não é prognóstico”, afirmou, comparando a medida a uma “jabuticaba que precisa ser refletida e evitada”, por ser algo “absolutamente bizarro, que não existe em nenhum lugar do mundo”.
O Selo e Suas Possíveis Consequências
A proposta do TSE prevê premiações em duas categorias: pesquisas de boca de urna e as realizadas nos sete dias anteriores ao pleito. Os critérios de avaliação ainda serão definidos. Bruno Bolognesi, cientista político e professor da UFPR, chamou o selo de “absurdo completo”, pois desconsidera a complexidade e os fatores externos que podem influenciar os resultados no dia da eleição, como clima ou feriados.
Bolognesi sugere que a Justiça Eleitoral deveria focar em outras medidas para aprimorar a qualidade das pesquisas, como exigir a presença de profissionais qualificados e oferecer formação para os institutos. Ministros do Supremo Tribunal Federal, de acordo com informações, veem a medida com estranheza, pois o TSE colocaria em concorrência institutos com metodologias distintas.
Contexto da Proposta e Regulamentação de Pesquisas
A discussão sobre a regulamentação das pesquisas eleitorais ganha força em meio a debates sobre a inclusão de áudios e vídeos em questionários, medida que pode aumentar o risco de manipulação. Até o momento, decisões judiciais contra pesquisas se baseiam em critérios técnicos, como falta de registro ou número insuficiente de entrevistados, e não no mérito do conteúdo.
A censura à pesquisa Atlas/Bloomberg, que incluiu um áudio de Flávio Bolsonaro, gerou forte repercussão. O caso deve voltar a ser debatido pelo plenário do TSE em agosto. Kassio Nunes Marques, segundo interlocutores, está confiante em obter maioria para aprovar uma regulamentação específica para pesquisas eleitorais no Brasil.