Polo Industrial de Manaus pode se tornar protagonista na cadeia de semicondutores
O Polo Industrial de Manaus (PIM), conhecido por sua forte atuação na manufatura eletroeletrônica, como a produção de celulares e televisores, se encontra em um momento crucial para expandir sua participação na cadeia global de semicondutores. A região, que já domina a montagem de produtos complexos, agora mira em etapas de maior valor agregado, como design, testes e encapsulamento de chips.
Os semicondutores, componentes invisíveis mas vitais para a tecnologia moderna, estão presentes em praticamente todos os dispositivos eletrônicos, desde smartphones e computadores até veículos e equipamentos médicos. A crescente demanda por esses chips, impulsionada também pela inteligência artificial e data centers, transformou a disputa por sua produção em uma questão estratégica de política industrial e autonomia econômica.
Embora o Brasil ainda esteja distante da escala de produção dos grandes players asiáticos, o PIM possui uma base sólida e uma demanda industrial concentrada que podem servir como trampolim. O desafio é converter essa capacidade de montagem em desenvolvimento tecnológico, integrando pesquisa, formação profissional e produção de componentes mais sofisticados. Conforme informação divulgada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, o Programa Brasil Semicondutores (Brasil Semicon), regulamentado em julho, visa exatamente essa integração, com apoio do BNDES e da Finep.
O potencial do PIM na nova geopolítica dos chips
A experiência consolidada do PIM em manufatura eletroeletrônica e automação é um diferencial importante. A presença de empresas como a Zilia Technologies, que produz milhões de módulos de memória anualmente em Manaus, exemplifica como a região já participa dessa cadeia. O BNDES, por exemplo, aprovou R$ 143,3 milhões para apoiar a modernização da Zilia, focando em equipamentos para testes e desenvolvimento de memórias para aplicações de ponta como servidores e inteligência artificial.
Este movimento demonstra que o PIM tem potencial para ir além da montagem, explorando nichos como o desenvolvimento de design de chips, sensores, memórias, componentes de potência, além de testes, encapsulamento e integração de módulos. A ideia é aproveitar a escala industrial existente para assumir uma posição de maior valor tecnológico, diminuindo a dependência de importação de componentes críticos.
Desafios e oportunidades: a corrida global pelos semicondutores
A urgência em fortalecer a indústria de semicondutores é global. Recentemente, a fabricante chinesa de memórias CXMT captou US$ 8,6 bilhões em sua estreia na bolsa de Xangai, evidenciando o forte interesse do mercado de capitais em projetos estratégicos do setor. Da mesma forma, o Vietnã tem buscado ativamente se aproximar de empresas e atrair investimentos para avançar em sua cadeia de valor tecnológica.
Esses exemplos internacionais reforçam a necessidade de o Brasil articular políticas públicas com as demandas do setor produtivo. O Brasil Semicon e os mecanismos de financiamento são passos importantes, mas o sucesso dependerá da capacidade de criar projetos que conectem a estratégia nacional às realidades e oportunidades do Polo Industrial de Manaus. A meta não é produzir todos os tipos de chips, mas sim ocupar espaços de maior valor agregado na produção global.
A importância estratégica dos semicondutores para o futuro
A produção de semicondutores é fundamental para a soberania tecnológica e o desenvolvimento econômico de um país. Eles são a espinha dorsal da economia digital, habilitando inovações em áreas como 5G, internet das coisas (IoT), veículos autônomos e computação de alto desempenho. A capacidade de projetar, fabricar ou, ao menos, montar e testar esses componentes de forma mais sofisticada é um passo crucial para a inserção do Brasil em cadeias de valor de alta tecnologia.
O PIM, com sua infraestrutura e mão de obra qualificada em manufatura, está posicionado para se beneficiar dessa nova fase. A colaboração entre governo, indústria e instituições de pesquisa será essencial para superar os desafios e aproveitar as oportunidades, transformando o polo em um centro relevante na complexa e disputada indústria de semicondutores global.