Polícia Federal Desvenda Misterioso Sumiço de Milhões em Produção Cinematográfica Ligada a Bolsonaro
A produção da cinebiografia de Jair Bolsonaro, intitulada ‘Dark Horse’, está no centro de uma investigação da Polícia Federal (PF) devido a uma expressiva diferença em suas transações financeiras internacionais. Documentos apresentados pela produtora revelam que mais de US$ 12 milhões foram enviados para o exterior, mas apenas US$ 2,8 milhões retornaram ao Brasil, levantando sérias suspeitas sobre o destino dos recursos.
A apuração, que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), busca esclarecer o paradeiro dos mais de US$ 9 milhões que não foram contabilizados no retorno ao país. A PF suspeita que o projeto cinematográfico possa ter sido utilizado como fachada para desvio de recursos ou para encobrir movimentações financeiras ilícitas, o que ainda depende de comprovação.
A investigação se aprofunda nas operações financeiras envolvendo a Entre Investimentos, empresa associada a Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e o fundo norte-americano Havengate. Este último é administrado por Paulo Calixto, advogado que representa Eduardo Bolsonaro. A PF deseja verificar se os valores transferidos ao Havengate foram de fato aplicados no financiamento do longa-metragem e se os registros financeiros batem com as despesas declaradas pela produtora.
PF Solicita Mais Tempo para Concluir Inquérito e Analisar Contas
Na última sexta-feira, 16, a Polícia Federal solicitou ao ministro André Mendonça, do STF, a prorrogação por mais 90 dias do inquérito que apura o financiamento do filme. A extensão do prazo visa permitir uma pericia contábil e bancária detalhada, que confrontará as transferências internacionais, os registros da produtora brasileira e os documentos que justificam os gastos da obra. A análise deverá ser minuciosa para determinar a lisura das operações.
Custos da Produção e Divergências Financeiras em Destaque
Em junho, a Go Up Entertainment, responsável pela produção de ‘Dark Horse’, informou que o custo total da obra ultrapassou R$ 75,1 milhões. Documentos anexados a uma investigação paralela da Polícia Civil indicam que R$ 54 milhões teriam sido gastos fora do Brasil e R$ 20,9 milhões em território nacional. Essa divisão dos gastos já apontava para uma movimentação financeira considerável no exterior, agora sob escrutínio da PF.
A defesa da Go Up Entertainment declarou, em nota, que a legalidade das captações de recursos utilizadas para financiar o filme será demonstrada por meio de uma perícia. A produtora busca comprovar a regularidade dos investimentos feitos na produção cinematográfica, apesar das investigações em curso.
Outras Linhas de Investigação: Emendas Parlamentares e Repasses Suspeitos
Além da diferença milionária nas transações internacionais, a PF investiga outras frentes. Uma delas apura se repasses financeiros atribuídos a Daniel Vorcaro foram feitos a pedido de Flávio Bolsonaro. Outra linha de investigação busca entender se recursos do projeto podem ter custeado despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Adicionalmente, a PF analisa a destinação de emendas parlamentares que foram direcionadas a organizações ligadas à produtora. A investigação também examina pagamentos que teriam sido feitos por ou para Daniel Vorcaro e a participação do senador Flávio Bolsonaro na captação de recursos para a produção. A suspeita é de que o projeto ‘Dark Horse’ possa ter sido usado para fins escusos.
Eduardo Bolsonaro negou ter recebido dinheiro de um fundo ligado a Vorcaro, afirmando que sua situação migratória nos EUA não permitiria tal repasse e que informou às autoridades americanas a origem de seus próprios recursos. Ele admitiu ter investido US$ 50 mil no projeto e recebido o valor de volta, mas negou que o reembolso tenha ocorrido através do fundo investigado.
Em um caso correlato, o ministro Flávio Dino, do STF, investiga suspeitas envolvendo R$ 2 milhões em emendas parlamentares indicadas pelo deputado Mário Frias para entidades ligadas a Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up Entertainment. As entidades sob investigação incluem o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC). Mário Frias declarou ao STF que as emendas não foram usadas para financiar a produção do filme.