Relatório do MPF expõe rede criminosa em garimpos do Amazonas, ligando extração ilegal de ouro, trabalho escravo e facção
Um abrangente relatório do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público Federal (MPF) no Amazonas, obtido pelo g1, detalha uma complexa rede de crimes envolvendo garimpos ilegais no estado.
As investigações revelaram a extração ilegal de mais de 290 quilos de ouro, a exploração de 56 trabalhadores em condições análogas à escravidão e danos ambientais estimados em mais de R$ 1,7 bilhão. A influência da facção criminosa Comando Vermelho também é um ponto central do documento.
O levantamento, que abrange atividades entre julho de 2025 e junho de 2026, foi encaminhado ao Conselho Superior do MPF. Conforme informação divulgada pelo g1, o relatório reúne apurações de operações como Jurupari, Barões do Filão, Brazilian Cricket e Roque, além de investigações sobre tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.
Operação Jurupari: 219 kg de ouro e danos de R$ 1,5 bilhão
A Operação Jurupari é destacada no relatório por ter identificado a extração de pelo menos 219 quilos de ouro por uma organização criminosa ao longo de aproximadamente três anos. O MPF classificou essa estimativa como conservadora, calculando os danos ambientais provocados pela atividade em R$ 1,5 bilhão.
A denúncia aponta o uso de empresas e terceiros para conferir uma aparência de legalidade às operações, justificar movimentações financeiras incompatíveis e ocultar a origem do ouro. Em abril de 2026, o Gaeco apresentou duas denúncias relacionadas a este caso.
Entre os denunciados está o tenente-coronel do Exército Abimael Alves Pinto, que, segundo o MPF, alertava garimpeiros sobre operações policiais. A defesa de Abimael Alves Pinto está sendo procurada pelo g1.
Operação Barões do Filão: Trabalho escravo e contaminação por mercúrio
Deflagrada em agosto de 2025, a Operação Barões do Filão investigou a exploração ilegal de ouro na Floresta Nacional de Urupadi, em Maués. Foram identificados cerca de 71,1 quilos de ouro extraídos ilegalmente.
A denúncia da Barões do Filão revelou que 56 trabalhadores foram submetidos a condições análogas à escravidão. O caso também envolve crimes ambientais e o uso de substâncias tóxicas, como mercúrio, no beneficiamento do ouro. Cerca de 8,5 quilos de mercúrio foram convertidos em metilmercúrio, uma forma mais perigosa, que se incorporou à cadeia alimentar.
A investigação apontou danos socioambientais e patrimoniais estimados em, no mínimo, R$ 267 milhões. Foram apreendidos ouro, armas de grosso calibre, munições, celulares e computadores durante a operação.
Comando Vermelho: Influência em tráfico, lavagem de dinheiro e advocacia
O relatório do Gaeco também detalha investigações sobre a atuação do Comando Vermelho (CV) no Amazonas, em operações distintas das que focaram nos garimpos.
Em fevereiro de 2026, 13 pessoas foram denunciadas por tráfico transnacional de drogas, organização criminosa e lavagem de capitais. Os recursos do tráfico eram depositados em contas de laranjas e, parte deles, convertidos em criptoativos enviados para carteiras digitais. Alan Sérgio Martins Batista, conhecido como “Alan Índio”, foi apontado como integrante de destaque do Conselho Permanente da facção.
A Operação Roque, em novembro de 2025, investigou o chamado núcleo jurídico do CV. Quatro advogados, apelidados internamente de “Gravatas do CV”, foram presos e denunciados por pertencimento à organização criminosa. Eles utilizavam seu acesso a presídios para transmitir informações entre membros presos e lideranças externas da facção.
Outras Frentes Criminosas: Empresa de câmbio e grilagem de terras
Uma denúncia em junho de 2026 investigou a empresa ARA Câmbio e Turismo (Romar Ltda.), suspeita de realizar operações de câmbio e transferências internacionais sem autorização do Banco Central. A empresa movimentou mais de R$ 128 milhões em créditos e débitos.
Adicionalmente, a Operação Brazilian Cricket investigou um esquema de grilagem e “esquentamento” de terras. Investigados inseriam informações falsas em registros imobiliários para legalizar a ocupação de terras públicas federais. Um dos imóveis citados, a Fazenda São Pedro 19, chegou a constar no Cadastro Rural com mais de 39 mil hectares.