Navegar no Encontro das Águas exige atenção redobrada de comandantes, diz especialista após naufrágio no Amazonas

Um trágico naufrágio na sexta-feira (13) na região do Encontro das Águas, em Manaus, levanta um alerta sobre os perigos da navegação neste ponto específico da Amazônia. A lancha de transporte Lima de Abreu XV afundou após sair de Manaus com destino a Nova Olinda do Norte, resultando em mortes e pessoas desaparecidas. A complexidade natural da área e a necessidade de um comando experiente são pontos cruciais destacados por especialistas.

A embarcação transportava cerca de 80 pessoas, e o resgate de 71 sobreviventes foi realizado. Infelizmente, o acidente ceifou a vida de pelo menos três pessoas, e cinco continuam desaparecidas. O comandante da lancha foi preso em flagrante, mas liberado sob fiança, enquanto a Justiça solicitou sua prisão preventiva e ele segue foragido. As buscas pelas vítimas são dificultadas pelas fortes correntes e pela profundidade da área.

Conforme informação divulgada pelo g1, a advogada maritimista Jemima de Paula Soares, presidente da Comissão de Direito Marítimo e Portuário da OAB-AM, explica que o Encontro das Águas é um dos trechos mais desafiadores para a navegação na região. A área, onde os rios Negro e Solimões se encontram, apresenta condições únicas que demandam cautela extrema dos pilotos.

Os desafios únicos do Encontro das Águas

O Encontro das Águas é um fenômeno natural impressionante, onde as águas escuras do Rio Negro e as águas barrentas do Rio Solimões correm lado a lado por quilômetros sem se misturar. No entanto, para a navegação, essa confluência representa um ponto de atenção redobrada. Segundo Jemima de Paula Soares, a área é frequentada por embarcações de todos os portes e possui correntes com velocidades distintas, o que exige dos comandantes um controle preciso.

“O Encontro das Águas, além de ser um ponto de confluência de embarcações de todos os tipos, é um ponto de encontro de dois rios com velocidades diferenciadas. Então, além de ser um ponto de confluência, ele também é um ponto de travessia. As embarcações têm que trafegar ali com baixa velocidade, estabelecendo sempre a comunicação via rádio”, explicou a especialista.

Fiscalização e responsabilidade na navegação

A advogada ressalta que a fiscalização naval é uma atividade diária e que os comandantes são habilitados pela Marinha, conhecendo regulamentos como o RPEAN (Regulamento para Evitar Abalroamentos no Mar). Contudo, a segurança na navegação não depende apenas das regras, mas também da responsabilidade dos operadores das embarcações. Ela mencionou casos de infrações, como a passagem em áreas proibidas ou em velocidade excessiva, que podem gerar transtornos.

“Mesmo com regras claras, há casos de navios que passam em áreas proibidas, como o furo do Paracouba, em velocidade que chega a afetar casas ribeirinhas”, comentou Soares. Ela ponderou que, sem um laudo técnico oficial, qualquer discussão sobre as causas exatas do naufrágio da Lima de Abreu XV seria especulação, destacando a importância do apoio às famílias enlutadas neste momento.

As operações de busca e as complexidades hidrodinâmicas

O naufrágio ocorreu por volta das 12h30 de sexta-feira (13). Vídeos divulgados mostraram pessoas, incluindo crianças, em botes salva-vidas aguardando socorro, enquanto outras embarcações tentavam auxiliar no resgate. Uma passageira relatou ter alertado o condutor para diminuir a velocidade devido ao banzeiro, ondas turbulentas características da região.

As buscas pelas vítimas desaparecidas são complexas, conforme explicou o Corpo de Bombeiros. As fortes correntes e as mudanças de direção das águas no Encontro das Águas dificultam a varredura e a localização de possíveis desaparecidos. “Fatores hidrodinâmicos do Encontro das Águas interferem muito nas operações de busca. Nós temos mudanças de direcionamento das correntes de arrasto, principalmente do Rio Solimões, que tem uma correnteza mais forte. Nós temos diferença de densidade de temperatura no Encontro das Águas. A profundidade é muito grande também. Isso é um complicador para as operações”, detalhou um porta-voz da corporação.

A área onde a embarcação naufragou foi localizada a aproximadamente 50 metros de profundidade. Uma força-tarefa, envolvendo mergulhadores, embarcações, drones, um helicóptero e três sonares, está empenhada nas buscas. Equipes de outras cidades amazônicas também auxiliam, considerando a possibilidade de as vítimas terem sido levadas para áreas mais distantes.