Toadas do Boi Garantido Batizam Novas Espécies de Gafanhotos Descobertas no Amazonas
A rica cultura do Festival de Parintins, especialmente as vibrantes toadas do Boi Garantido, serviu de inspiração para a nomeação de novas espécies de gafanhotos. A descoberta científica, realizada por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), trouxe à luz a Kamara kratxatxa e a Proscopia caacy, nomes que agora ecoam tanto nas festas folclóricas quanto nos anais da ciência.
Este estudo, publicado na renomada revista científica Zootaxa, não apenas identificou essas duas espécies singulares, mas também revelou um total de nove novas espécies de gafanhotos e quatro novos gêneros. A maioria das descobertas, incluindo as inspiradas nas toadas, ocorreu em solo amazônico, reforçando a importância da região para a biodiversidade global.
A escolha dos nomes reflete uma conexão profunda entre a ciência e as tradições locais. A pesquisadora Larissa Lima de Queiroz, autora principal do estudo, buscou homenagear os povos originários e a cultura amazônica, utilizando como base suas toadas favoritas do Boi Garantido. Conforme divulgado pelo Inpa, a pesquisa visa aproximar a ciência da sociedade e valorizar o patrimônio cultural da Amazônia.
Kamara Kratxatxa: O Gafanhoto que Une Indígena e Folclore
A espécie Kamara kratxatxa, cujo nome significa “gafanhoto-onça” em uma fusão de termos indígenas e científicos, é uma homenagem direta à toada “Kamara”, do Boi Garantido, lançada em 2026. A colaboração do indígena João Kamarayano, da etnia Hixkaryana, foi fundamental para incorporar elementos da língua e da cultura de seu povo à nomenclatura científica, estabelecendo um elo cultural significativo.
O Boi Garantido é uma figura central no Festival de Parintins, um dos maiores eventos culturais do Brasil. Ao lado de seu rival, o Boi-Bumbá Caprichoso, as agremiações promovem uma celebração ímpar da cultura amazônica, atraindo milhares de pessoas todos os anos. A toada “Kamara” é um exemplo da riqueza musical que emana dessa tradição.
Proscopia Caacy: A Mãe da Floresta em Nome Científico
Em paralelo, a espécie Proscopia caacy recebeu seu nome em reverência à toada “Mãe da Mata”, apresentada pelo Boi Garantido em 2011. A palavra “Caacy”, de origem tupi-guarani, carrega o belo significado de “mãe da floresta”, um título que se alinha perfeitamente com a origem amazônica do inseto e a temática da música.
A escolha desses nomes pela pesquisadora Larissa Lima de Queiroz, que se declara fã do Boi Garantido desde a infância, é uma forma de celebrar suas raízes e a cultura de sua terra. Ela enfatiza o desejo de batizar a fauna amazônica com nomes que remetam aos povos originários e às ricas tradições da região.
O Processo Científico por Trás da Descoberta
A pesquisa que levou à descoberta dessas novas espécies começou em 2019, durante o doutorado de Larissa Queiroz. O trabalho de campo intensificou-se a partir de 2022, após a vacinação contra a Covid-19, e envolveu expedições e a análise de exemplares preservados em museus no Brasil e no exterior. Alguns dos insetos estudados, como os da espécie Proscopia caacy, foram coletados ainda em 1984, mas só agora foram devidamente identificados como espécies novas.
Larissa Lima de Queiroz destaca que a busca por novas espécies frequentemente envolve a reanálise de coleções científicas antigas. Exemplares coletados décadas atrás podem conter segredos ainda não revelados, como a descoberta de que gafanhotos coletados em 1984 pertenciam a uma espécie inédita. A identificação de um novo gênero, como o Kamara, que já engloba três espécies, representa um avanço científico ainda mais expressivo.
Diversidade Amazônica e a Importância da Valorização Cultural
A pesquisa identificou um total de nove novas espécies de gafanhotos, sendo oito delas registradas na Amazônia brasileira. Entre elas estão Celatus nath, encontrada em Presidente Figueiredo, no Amazonas, e Kamara kratxatxa, localizada em Rio Branco, no Acre. Outras descobertas incluem Lianascopia albae e Milenascopia uatuma no Amazonas, Lianascopia domenicoi em Roraima, e Proscopia caacy, Pseudoproscopia taka e Pseudoproscopia trajakan em diferentes localidades do Pará e Amazonas.
A pesquisadora Larissa Lima de Queiroz expressa a esperança de que este estudo contribua para uma maior valorização tanto da fauna amazônica quanto da rica cultura da região. A união entre a ciência e as tradições locais, exemplificada pela nomeação de gafanhotos com toadas do Boi Garantido, é um poderoso lembrete da interconexão entre a natureza e a identidade cultural do Brasil.