O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o levantamento do sigilo de relatórios da Polícia Federal (PF) que detalham supostas irregularidades na atuação do ministro André Mendonça. Os documentos apontam indícios de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crimes de responsabilidade em investigações envolvendo o Banco Master.
Em resposta, o presidente do STF, Edson Fachin, abriu um procedimento próprio e solicitou explicações por escrito de Moraes, Mendonça, do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. O foco é esclarecer a atuação da PF, o acesso a informações sigilosas e possíveis vazamentos.
As investigações centrais giram em torno de uma ordem expedida por Mendonça em um inquérito que envolve o banqueiro Daniel Vorcaro. Conforme apurado pela PF, o ministro teria acessado dados brutos de celulares apreendidos antes mesmo da análise técnica, o que levanta sérias dúvidas sobre a cadeia de custódia das provas.
PF Detalha Interferência e Vulnerabilidade em Provas
Os relatórios da PF indicam que André Mendonça teria tido acesso a informações de comunicações eletrônicas ainda não validadas pela equipe de investigação. Essa prática, segundo a polícia, pode comprometer a integridade das provas.
Outro ponto de preocupação é a guarda de dados da Operação Sem Desconto. Discos rígidos com informações extraídas de celulares e dados bancários teriam ficado sob controle físico de uma única agente, dificultando o rastreamento de acessos e aumentando o risco de vazamentos.
A PF relacionou essa vulnerabilidade a um possível vazamento de informação publicado pela revista Piauí, em agosto de 2026. A reportagem divulgou uma imagem de um celular que constava em uma versão preliminar de um relatório policial, posteriormente descartada.
Ministro André Mendonça Suspeito de Intervir em Delações e Investigar Colegas
As acusações contra Mendonça também incluem a suposta participação em tratativas de colaboração premiada. Relatórios citam que o ministro teria questionado investigadores sobre negociações com colaboradores e discutido benefícios considerados incompatíveis com a lei.
Um dos pontos mais graves é a alegação de que Mendonça teria demonstrado interesse em investigar o próprio ministro Alexandre de Moraes. Segundo a PF, o ministro teria perguntado sobre menções a Moraes em celulares apreendidos e solicitado uma justificativa para abrir uma investigação contra o colega.
A PF também relatou uma reunião onde Mendonça teria entregue uma cópia de uma decisão que determinava diligências amplas sobre o celular de Daniel Vorcaro, incluindo a busca por informações relacionadas a Moraes. Os investigadores exigiram a versão oficial assinada antes de prosseguir.
Fachin Cobra Esclarecimentos e Abre Nova Frente de Investigação
A atuação de Mendonça teria incluído críticas à cúpula da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República. O ministro teria questionado a imparcialidade de Paulo Gonet e manifestado a intenção de arrolá-lo como testemunha.
O caso ganhou força em setembro, quando Mendonça determinou o levantamento de sigilo de uma investigação sobre vazamentos e uma suposta rede de monitoramento envolvendo Daniel Vorcaro. Gonet contestou a medida, argumentando que um relatório policial derivado dessa ordem continha mais de 188 páginas dedicadas a Alexandre de Moraes.
Em resposta, o ministro Fachin não apenas recebeu os relatórios, mas também abriu um procedimento autônomo para apurar os fatos. Ele busca esclarecer o cumprimento da Lei Orgânica da Magistratura Nacional, o uso indevido de credenciais e as circunstâncias da ordem de Mendonça para acessar dados de celulares.