O Irã resiste a crises graves e ataques de EUA e Israel devido a uma estrutura de poder robusta e multicamadas, dificultando sua derrubada.
A República Islâmica do Irã atravessa o seu período mais crítico, com ataques conjuntos de Estados Unidos e Israel resultando na morte do Líder Supremo Ali Khamenei e de outros comandantes, além de danos à infraestrutura.
Apesar do desejo declarado de Washington e Tel Aviv por uma mudança de regime e do incentivo à população iraniana para derrubar o governo, especialistas apontam para uma arquitetura de poder cuidadosamente construída e duradoura.
Essa resiliência, descrita como uma “estrutura em forma de Hidra”, onde o corte de uma cabeça gera o crescimento de outras, é o que tem permitido ao Irã suportar crises recorrentes, conforme análise de especialistas. As informações são de análise especializada.
A “Poliditadura” Iraniana: Uma Aliança de Poderes
Desde a Revolução de 1979, o Irã desenvolveu um sistema político projetado para resistir a crises, combinando instituições controladas, doutrinação ideológica, coesão das elites e uma oposição fragmentada. Sébastien Boussois, pesquisador do Instituto Geopolítico Europeu, compara o sistema a uma “Hidra”, monstro mitológico cujas cabeças renasciam após serem cortadas.
A sucessão de Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, como Líder Supremo, poucas semanas após a morte do pai, exemplifica essa continuidade. Ao contrário de países como Tunísia, Egito e Síria, onde líderes foram depostos, o Irã se mantém firme, impulsionado por um aparato de segurança ideologicamente motivado.
Bernard Hourcade, ex-diretor do Instituto Francês de Pesquisa no Irã, descreve o Irã não como uma ditadura tradicional, mas como uma “poliditadura”. Este modelo é uma aliança entre o islamismo político e um forte nacionalismo iraniano, com o poder distribuído entre esferas clericais, militares e econômicas, tornando o sistema mais difícil de desmantelar do que regimes centrados em um único líder.
O Papel Crucial das Forças de Segurança e da Economia Controlada
O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI) é considerado a “espinha dorsal do regime”, atuando como força militar paralela ao exército regular. Além de sua função militar, a Guarda se tornou uma potência política e econômica, com vastos interesses empresariais e influência através da milícia Basij.
A unidade das forças de segurança diante de protestos é um ponto crucial, ligada a uma “cultura de martírio” presente no xiismo e em grupos como Hamas e Hezbollah. O vice-ministro da Defesa, Reza Talaeinik, afirmou que cada comandante da Guarda possui sucessores designados até três níveis abaixo, garantindo a continuidade operacional.
A estrutura descentralizada do Irã, moldada por lições do colapso iraquiano em 2003, confere à Guarda um papel ainda mais importante, segundo Kasra Aarabi, da United Against Nuclear Iran. Grande parte da economia iraniana é controlada por organizações estatais como as bonyads, fundações de caridade que comandam empresas e distribuem empregos e contratos a grupos leais ao regime.
Religião e Fragmentação da Oposição como Pilares de Sustentação
A religião é central para a manutenção do poder no Irã, com uma rede duradoura de instituições religiosas, políticas e educacionais que moldam a visão de mundo do Estado. Essa estrutura “muito antiga e muito poderosa” funciona como “uma verdadeira fonte de unidade, vocação e recrutamento”, segundo Boussois.
Historicamente, a oposição iraniana é marcada pela fragmentação, reunindo reformistas, monarquistas, grupos de esquerda e movimentos da diáspora. A guerra com o Iraque e a posterior marginalização, desacreditação ou prisão de facções moderadas pelo regime e por grupos linha-dura contribuíram para a fragilidade da oposição.
Ondas de protestos, como o Movimento Verde de 2009 e as manifestações após a morte de Mahsa Amini em 2022, careceram de liderança centralizada e foram duramente reprimidas. O sistema de vigilância sofisticado, incluindo desligamentos de internet e monitoramento por IA, também contribui para a contenção da dissidência.
O Futuro Incerto do Regime e a Mudança de Cálculo Popular
Especialistas apontam que regimes autoritários tendem a cair quando a perda de legitimidade, a pressão externa e a capacidade de mobilização popular se alinham. O Irã historicamente enfrentou a pressão externa, mas a perda de legitimidade e a mobilização popular têm sido mais complexas de se concretizar.
Apesar da morte de Khamenei ser vista como um golpe, o seu substituto pode não ter a mesma autoridade. A inevitabilidade do fim da República Islâmica é debatida, mas sua iminência é questionada. Hourcade acredita que o fim é inevitável, mas não iminente, comparando a situação a um relógio cuja cronologia é incerta.
No entanto, muitos iranianos sentem que o Estado falha em garantir necessidades básicas e intensifica a repressão violenta, o que tem alterado o cálculo sobre a busca por mudanças. A brutal repressão a protestos recentes acelerou essa mudança de percepção, indicando um potencial para maior pressão popular no futuro.