Dubai, o sonho que escorre pelo ralo? Guerra no Irã causa ‘êxodo’ de influenciadores e abala a imagem de paraíso.

Promovido por anos como um porto seguro e um destino de luxo isento de impostos, Dubai agora sente os efeitos da guerra no Irã. A imagem de ‘paraíso’ para estrangeiros e influenciadores está sendo questionada, com notícias de um possível “grande êxodo” e o desmoronamento da “fantasia reluzente” do emirado.

A escalada de tensões na região levou a ataques que, segundo o Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos, incluíram drones e mísseis balísticos contra o país, com supostos impactos em Dubai. Isso gerou apreensão e afetou diretamente o turismo e a economia local, que depende fortemente de atividades não petrolíferas.

A crise também se manifesta na esfera legal, com a prisão de influenciadores e outros indivíduos por divulgarem imagens dos danos causados pelos ataques. A organização Detained in Dubai estima que mais de 100 pessoas, incluindo europeus, foram detidas sob leis de crimes cibernéticos ou segurança nacional, enfrentando multas ou penas de prisão. Conforme divulgado em reportagens recentes, essa situação contrasta com os esforços das autoridades para manter uma aparência de normalidade.

O Fim da Fantasia de Influenciadores em Dubai

O tabloide britânico “Daily Mail” tem destacado o que chama de “o grande êxodo de Dubai”, com influenciadores que antes exibiam vidas glamorosas sendo forçados a deixar o país. Essa narrativa sugere que a “fantasia reluzente e isenta de impostos dos influencers está desmoronando”. A prisão de figuras públicas por compartilharem informações sobre os ataques intensificou essa percepção.

Impacto Econômico e a Dependência de Não-Emiradenses

Dubai, o segundo maior emirado dos Emirados Árabes Unidos, sofreu danos econômicos significativos. Sua economia, impulsionada principalmente por turismo, serviços financeiros, tecnologia, mercado imobiliário e logística, é fortemente dependente do fluxo contínuo de residentes estrangeiros, investidores e turistas. Cerca de 90% da população de 3,8 milhões de pessoas são expatriados, cuja saída, mesmo que temporária, tem um impacto econômico desproporcional, como aponta uma análise de 2021 do Instituto dos Estados Árabes do Golfo.

Embora não haja números oficiais sobre quantos estrangeiros deixaram o emirado, relatos indicam que dezenas de milhares fugiram desde o início dos ataques. O turismo, pilar da economia de Dubai, sofreu uma redução substancial, com empresas do setor reportando quedas de até 80% no número de visitantes. As taxas de ocupação hoteleira em março despencaram, segundo a publicação Arabian Gulf Business Insight.

Esforços de Recuperação e a Busca por Confiança

Em resposta à crise, as autoridades dos Emirados Árabes Unidos implementaram um pacote de medidas de apoio no valor de aproximadamente US$ 272 milhões (1,39 bilhão de reais). Este pacote inclui a extensão de três meses para o pagamento de taxas governamentais, como impostos sobre vendas e turismo, além de financiamento para estimular o setor após o fim do conflito.

O governo também busca flexibilizar regras de status fiscal e residência para estrangeiros, visando convencer aqueles que partiram a retornar. “Dubai foi um dos primeiros governos regionais a lançar um programa de apoio econômico”, disse Robert Mogielnicki, pesquisador do Instituto dos Estados Árabes do Golfo, destacando a necessidade de uma resposta rápida devido à importância da economia não petrolífera do emirado.

Reputação Abalada e a Longa Jornada de Recuperação

Além dos danos econômicos tangíveis, Dubai enfrenta perdas menos concretas, mas igualmente significativas, em sua reputação. Imagens de hotéis de luxo em chamas e manchetes sobre prisões de influenciadores em um Estado autoritário abalam a imagem de estabilidade que o emirado cultivou por anos. “Durante anos, a marca dos Emirados Árabes Unidos — e a de Dubai em particular — foi sustentada por sua alegação de ser uma ilha de estabilidade em uma vizinhança perigosa”, escreveu o Financial Times.

A recuperação da confiança de indivíduos de alto patrimônio e influenciadores será um desafio. “Expatriados são um público-chave para Dubai”, argumentou Mogielnicki. “Portanto, suspeito que haverá esforços concentrados e incentivos fortes para reter, trazer de volta e continuar atraindo expatriados no futuro. Não será fácil, mas é um discurso comercial que Dubai seguirá fazendo.”

Apesar dos desafios, especialistas como Karen Young, da Universidade Columbia, e Martin Henkelmann, do Conselho Conjunto Germano-Emiradense, expressam otimismo cauteloso quanto à capacidade de recuperação de Dubai, lembrando sua resiliência após a pandemia de COVID-19. No entanto, a perspectiva positiva depende de uma resolução rápida do conflito na região, pois a economia do emirado, embora resiliente, foi abalada pelos impactos da guerra.