Grupo nacionalista russo Russkaya Obshina ganha força com ações violentas e apoio de figuras ligadas ao Kremlin, chocando pela brutalidade em ataques a minorias.
Uma festa de aniversário em uma boate se transformou em um cenário de horror quando homens mascarados invadiram o local, agredindo física e verbalmente os convidados. A ação, orquestrada pelo grupo nacionalista Russkaya Obshina, chocou pela violência e pela motivação por trás do ataque, que visava punir o que consideram afrontas aos “valores tradicionais russos”.
Essa invasão brutal em Arkhangelsk, onde Katya celebrava seus 30 anos, é apenas um reflexo da crescente atuação do Russkaya Obshina. O grupo, que se apresenta como defensor da moralidade e da ordem, tem intensificado suas operações, muitas vezes com a conivência das autoridades locais, levantando sérias preocupações sobre direitos humanos e a liberdade na Rússia.
A investigação da BBC revela uma rede complexa de apoio, que inclui ligações com fundações beneficentes ligadas a personalidades influentes próximas ao governo russo, indicando um respaldo que transcende a ação isolada de um grupo de vigilantes. O caso de Katya, que foi interrogada e posteriormente condenada por blasfêmia por um crucifixo de neon, evidencia a perseguição a indivíduos que não se encaixam no molde de “valores tradicionais” promovidos pelo Kremlin.
Ascensão e Método de Operação do Russkaya Obshina
O Russkaya Obshina se consolidou como o maior entre diversos grupos nacionalistas russos, com um aumento expressivo em suas atividades nos últimos dois anos. A tática do grupo envolve a invasão de estabelecimentos como boates, clínicas de aborto e locais frequentados por migrantes, sob o pretexto de combater atividades contrárias aos “valores tradicionais” e à lei russa. Após as invasões, pressionam as autoridades para que investigações e processos sejam instaurados contra os alvos.
Frequentemente, esses ataques são direcionados a migrantes, com um em cada quatro posts do grupo contendo linguagem racista e acusações de crimes. Vídeos divulgados pelo próprio Russkaya Obshina mostram confrontos com essas pessoas em seus locais de trabalho ou lazer. A polícia, em muitos casos, atua em conjunto com o grupo, como ocorreu na festa de Katya, onde o grupo afirmou buscar “propaganda” LGBT.
Conexões com o Poder e Financiamento Misterioso
Análises de documentos obtidos pela BBC Eye sugerem que o Russkaya Obshina recebe recursos de fundações beneficentes ligadas a figuras influentes. Entre os principais financiadores apontados estão Igor Khudokormov, magnata do setor alimentício com laços próximos ao vice-primeiro-ministro Dmitry Patrushev, e Sergei Mikheev, comentarista nacionalista com supostas ligações com o Kremlin. Ambos negam o repasse direto de fundos ao grupo.
A Igreja Ortodoxa Russa também tem recomendado parcerias com o grupo, conferindo-lhe maior legitimidade em sua cruzada por “valores tradicionais”, alinhados aos ensinamentos religiosos. Analistas apontam a improbabilidade de o Russkaya Obshina operar sem o aval do governo russo, especialmente considerando o forte controle estatal sobre a vida pública e a promoção de um discurso nacionalista pelo Kremlin.
Apoio à Guerra e o Cenário de Intimidação
O Russkaya Obshina declara apoio à guerra na Ucrânia e chegou a formar uma unidade militar conjunta com torcedores de extrema-direita. A atuação do grupo, que se assemelha a patrulhas civis, não possui registro oficial, mas conta com a participação policial em algumas operações. Especialistas em direitos humanos alertam que a perseguição de grupos sem justificativa legal configura intimidação e violação da lei.
A Embaixada da Rússia em Londres declarou que o “amplo apoio popular” ao grupo reflete o interesse crescente pela cultura nacional e que o “engajamento cívico na Rússia parece incomodar aqueles que tentam denegrir e desacreditar nosso país”. Para Katya, a vida mudou drasticamente após o ataque e o processo judicial, deixando um “vazio” após ter sua rotina de organização de eventos, que lhe trazia felicidade, interrompida.