Futebol Transforma Vidas de Meninas na Índia, Dando Força Contra Casamentos Forçados

Em uma comunidade onde tradições antigas muitas vezes ditam o destino das jovens, o futebol emergiu como um poderoso agente de mudança na Índia. O esporte não é apenas uma atividade recreativa, mas uma ferramenta crucial que capacita meninas a resistir a casamentos forçados e a perseguir seus próprios objetivos.

Histórias como a de Nisha e Munna Vaishnav ilustram essa transformação. As irmãs, que vivem em uma aldeia no estado de Rajastão, encontraram no futebol a confiança e a voz necessárias para desafiar expectativas sociais e familiares, recusando propostas de casamento precoces.

Essa realidade, embora desafiadora, é um reflexo de uma luta maior contra o casamento infantil na Índia. Conforme dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), cerca de 25% das mulheres indianas se casam antes da idade legal. No entanto, iniciativas como o projeto Football for Freedom estão mudando esse cenário, oferecendo às meninas uma alternativa e um futuro com mais escolhas. Essas informações foram divulgadas pelo Football for Freedom.

O Poder Transformador do Futebol no Campo e na Vida

Nisha, com apenas 14 anos, e sua irmã Munna, de 18, vivenciaram um momento de tensão quando foram abordadas por uma família interessada em um casamento arranjado para o filho. A mãe de Nisha, inicialmente receptiva, viu sua filha se recusar a realizar gestos de respeito tradicionais, como tocar os pés dos mais velhos. Essa recusa foi um ato de coragem impulsionado pela confiança adquirida com o futebol.

A lei indiana proíbe o casamento de menores de 18 anos para meninas, mas a prática ainda é prevalente, especialmente em regiões como Rajastão. O projeto Football for Freedom, que utiliza o esporte para promover o bem-estar de meninas, foi fundamental na vida de Munna e, por consequência, de Nisha. Munna foi pioneira em sua aldeia, lutando por permissão para competir em torneios e, simbolicamente, usando shorts em campo, desafiando normas de vestimenta conservadoras.

“Nós as ignoramos, decidimos que não nos importávamos e continuamos usando shorts”, relatou Munna sobre as críticas iniciais da comunidade. Essa resiliência se tornou um exemplo, e Nisha rapidamente se destacou, integrando a seleção estadual de futebol. Ela também cortou o cabelo curto, um gesto audacioso em uma cultura que espera cabelos longos das jovens.

Resistência e Sonhos Além do Casamento Infantil

Quando a proposta de casamento surgiu novamente para Nisha, ela não hesitou em expressar seus desejos. Afirmou ser jovem demais e que seu foco era o futebol, seus sonhos e seu futuro no esporte. Essa postura firme levou à retirada da proposta, um pequeno, mas significativo, triunfo.

Em 2025, as irmãs recusaram coletivamente uma proposta de casamento arranjado que envolvia ambas e seu irmão mais novo. Elas defendem abertamente a oposição ao casamento infantil, priorizando suas carreiras esportivas. Quando questionada por seu pai sobre um possível namorado no treino de futebol, Nisha respondeu com convicção: “Não há namorado. Eu vou jogar futebol — esse é o meu amor.”

O casamento infantil expõe meninas a riscos significativos, como coerção sexual, gravidez precoce, desnutrição e problemas de saúde, além de interromper seus estudos e limitar oportunidades futuras, conforme apontam diversos estudos. Padma Joshi, do Football for Freedom, explica que a iniciativa busca conscientizar as famílias sobre esses perigos. Desde 2016, o projeto treinou cerca de 800 meninas em 13 aldeias de Rajastão.

Educação, Esporte e Independência como Escudo

Joshi ressalta que a abordagem inicial não era explicitamente focar em impedir o casamento infantil, mas sim em empoderar as meninas. Ao aprenderem sobre seus direitos e os malefícios do casamento precoce, elas ganham a capacidade de se posicionar. Além disso, Joshi destaca para os pais o potencial de carreira no esporte, mencionando que alguns estados indianos reservam vagas no setor público para atletas.

A pobreza e a tradição são fortes impulsionadores do casamento infantil na Índia, onde as meninas são, por vezes, vistas como um fardo financeiro. A mãe de Nisha e Munna, Laali, casada aos 16 anos, expressou a preocupação com a exposição das filhas a influências negativas caso não se casem cedo. Ela admitiu que os casamentos são realizados discretamente para evitar a detecção, mesmo sabendo que a prática é ilegal.

A lei indiana prevê punições severas para quem facilita o casamento infantil, incluindo prisão e multas. No entanto, a aplicação é dificultada pela falta de testemunhas dispostas a colaborar e pela cooperação das comunidades em ocultar esses eventos. Se a noiva ou o noivo denunciarem, o casamento pode ser anulado, mas a dificuldade em se voltar contra os próprios pais é um obstáculo. Segundo o Ministério da Mulher e do Desenvolvimento Infantil, o número de casos notificados de casamento infantil na Índia tem aumentado gradualmente, com 1.050 casos em 2021, ante 395 em 2017, embora represente uma fração mínima do total de meninas que se casam anualmente.

Um Futuro Moldado Pelo Esporte e pela Autonomia

Nisha, agora com 15 anos, almeja representar a seleção nacional da Índia e, caso não consiga, busca um emprego no governo através de sua performance esportiva para garantir independência financeira. Para isso, ela precisa continuar competindo em alto nível até concluir a universidade.

Munna, com 19 anos, enfrenta a pressão de um casamento arranjado por parte da família do seu cunhado, mas resiste firmemente. Embora não tenha alcançado o mesmo nível esportivo de Nisha, ela se dedica a treinar outras meninas no projeto Football for Freedom e cursa a faculdade, com o objetivo de se tornar professora de educação física. Ela deseja proporcionar às meninas que treina a chance de realizar seus sonhos e construir um futuro com autonomia, incentivando-as a não aceitar o casamento infantil.

“Consiga eu impedir o casamento delas ou não, quero ajudá-las a se tornar alguém na vida, a realizar seus sonhos”, afirma Munna, mostrando o impacto contínuo do esporte na formação de futuras líderes e mulheres independentes.