Política Externa em Debate: Candidatos à Presidência Detalham Visões sobre Relações Internacionais
A política externa se tornou um palco central na atual corrida presidencial, com os candidatos apresentando propostas distintas para a inserção do Brasil no cenário global. Questões cruciais como a relação com os Estados Unidos e a China, a participação em blocos como o BRICS e o Mercosul, e estratégias para lidar com minerais críticos e segurança internacional dividem os principais concorrentes.
A Folha de S.Paulo consultou cinco campanhas sobre seus planos para a política externa. As posições revelam diferentes visões sobre o papel do Brasil no mundo, desde o aprofundamento de laços com o Sul Global até a busca por alianças mais pragmáticas com o Ocidente.
As divergências vão desde a adesão a blocos econômicos e geopolíticos até a forma de cooperação em segurança e a abordagem em conflitos internacionais, como o que ocorre em Israel e Gaza. Conforme informação divulgada pela Folha de S.Paulo, a única campanha que não respondeu aos questionamentos da reportagem foi a de Flávio Bolsonaro.
Lula: Integração Sul-Global e Desdolarização
O programa de Luiz Inácio Lula da Silva propõe um aprofundamento da “aproximação geopolítica com o BRICS e com o Sul Global”. Lula defende a desdolarização, incentivando transações em moedas locais entre os países do bloco. No Mercosul, a visão é de utilizá-lo como principal instrumento de integração econômica, com acordos como o firmado com a União Europeia, rejeitando a proposta de uma área de livre comércio para permitir acordos bilaterais.
Em relação aos Estados Unidos, Lula propõe aprofundar a cooperação em segurança, com compartilhamento de inteligência e combate ao narcotráfico, mas condena operações militares americanas na América Latina. O governo Lula também paralisou o processo de adesão à OCDE, argumentando que algumas cláusulas são prejudiciais a países em desenvolvimento.
Na questão dos minerais críticos, o governo Lula defendeu a lei que incentiva o processamento no Brasil e cria um conselho regulador. Sobre Israel e Gaza, Lula classifica as ações israelenses como genocídio e defende a criação de um Estado Palestino, ao mesmo tempo em que condenou os ataques do Hamas. O Brasil entrou no processo contra Israel na Corte Internacional de Justiça, o que levou à declaração de “persona non grata” para o presidente brasileiro pelo governo de Israel.
Flávio Bolsonaro: Aliança com EUA e Reavaliação do BRICS
Flávio Bolsonaro avalia a permanência do Brasil no BRICS, questionando o bloco por ser “muito ideológico” e uma plataforma para “provocar os Estados Unidos”. Ele defende a flexibilização do Mercosul para buscar acordos bilaterais com os EUA e propõe a incorporação do Brasil ao “Escudo das Américas”, iniciativa regional de segurança liderada por Washington.
O candidato defende a retomada do processo de adesão à OCDE e propõe uma parceria estratégica com os EUA para investimento em minerais críticos, visando reduzir a dependência da China. Em relação a Israel e Gaza, Flávio Bolsonaro promete transferir a embaixada brasileira para Jerusalém e aderir aos Acordos de Isaac, acusando Lula de fazer uma política antissemita.
Flávio Bolsonaro propõe celebrar com o governo Trump “a mais forte aliança conservadora da história do Hemisfério Ocidental” e critica a postura de Lula como “abertamente anti-americano”. Ele também propõe a criação de uma zona de livre comércio nas Américas, a Afta.
Ronaldo Caiado: Pragmatismo e Soberania Nacional
Ronaldo Caiado não prega a saída do BRICS, mas defende que o bloco não seja usado para “hostilizar as democracias ocidentais”. Ele apoia a flexibilização do Mercosul para permitir acordos bilaterais de livre comércio e defende a cooperação internacional contra o narcotráfico, mas rejeita operações dos EUA em território brasileiro, enfatizando a soberania nacional.
Caiado quer a retomada do processo de entrada na OCDE e acredita que o ingresso estimulará maiores investimentos. Em relação aos minerais críticos, o candidato não apoia restrições à participação estrangeira, defendendo processamento local e inserção em cadeias internacionais. Ele propõe normalizar relações com Israel e condena os ataques do Hamas, pedindo proteção à população civil palestina.
Caiado busca reconstruir a relação com os EUA, mas rejeita tentativas de interferência eleitoral e tarifas. Ele considera que Lula usa tensões com Trump para “mobilização eleitoral” e Flávio de “subserviência”, afirmando que “bravata não é diplomacia, assim como submissão não é negociação”.
Renan Santos: BRICS Instrumental e “Abrir o Mercosul”
Renan Santos defende uma participação “estritamente instrumental” no BRICS, criticando a atuação do bloco como “extensão da política externa chinesa” e uma agenda “declaradamente antiocidental”. Ele propõe “abrir o Mercosul” com redução tarifária e revisão da Tarifa Externa Comum, mas não defende a flexibilização da união aduaneira.
Aceita cooperação internacional em inteligência, mas afirma que operações armadas em território brasileiro devem ser conduzidas por forças brasileiras, propondo um pacto interamericano contra o crime organizado liderado pelo Brasil. Não concorda com a designação de facções como terroristas, afirmando que “americano nenhum vai matar nossos bandidos”.
Renan Santos defende a retomada do processo de entrada na OCDE, vendo o bloco como um “ancoragem externa” para reformas econômicas. Quer celebrar acordos bilaterais com EUA e União Europeia para processamento de terras raras, falando na criação de uma “OPEP das terras raras” junto à China. Propõe desdolarização da América do Sul e critica as “interferências americanas nas eleições”, pregando o não-alinhamento.
Augusto Cury: BRICS Comercial e Flexibilização do Mercosul
Augusto Cury quer tirar o Brasil do “papel que ele aceitou dentro do BRICS”, mantendo o bloco como plataforma de comércio e financiamento, mas retirando a agenda geopolítica. Ele propõe flexibilizar o Mercosul, retirando a exigência de negociação em bloco para permitir acordos de livre comércio.
Defende mais cooperação com os EUA, mas sem operações estrangeiras em solo brasileiro, com o FBI e a DEA trabalhando “ao lado da nossa Polícia Federal, não no lugar dela”. Não apoia restrições a capital estrangeiro na exploração de minerais críticos, mas exige o processamento no Brasil, comparando a medida a um “pedágio de entrada”.
Cury defende a retomada de relações diplomáticas plenas com Israel, mas reconhece o direito do povo palestino a um Estado e critica a guerra em Gaza. Ele afirma que a relação Brasil-EUA foi “judicializada e politizada”, defendendo a retomada de negociações com Trump em nível técnico e a diversificação de parceiros comerciais.
Romeu Zema: Saída do BRICS e Relações “Pragmáticas” com EUA
Romeu Zema quer tirar o Brasil do BRICS, preservando relações comerciais, mas considerando o bloco um “instrumento ideológico contra o Ocidente”. Ele defende a flexibilização do Mercosul, transformando-o em zona de livre comércio para permitir acordos bilaterais.
Zema aceitaria militares americanos no Brasil para combater o PCC, desde que fosse “pré-acordado”, seguindo o modelo da Colômbia. Propõe retomar o processo de adesão do Brasil à OCDE, promovendo as reformas necessárias. Defende a atração de investimentos estrangeiros em minerais críticos, com controle majoritário brasileiro e processamento no Brasil.
Zema quer normalizar relações com Israel e retomar a participação na Aliança Internacional para a Memória do Holocausto. Ele propõe relações “pragmáticas” com o governo Trump, criticando a “tendenciosidade extremamente pró-BRICS e anti-EUA” do governo Lula.