Estrategista da extrema-direita latino-americana, Fernando Cerimedo, é alvo de investigações na Bolívia e vê aliados se distanciarem
Fernando Cerimedo, consultor político argentino com histórico de assessoria a figuras da extrema-direita como Jair Bolsonaro e Javier Milei, encontra-se no centro de uma avalanche de processos judiciais na Bolívia. Sua prisão no aeroporto de Santa Cruz de la Sierra, em 18 de agosto, marcou uma abrupta interrupção em sua ascensão como conselheiro pessoal do presidente boliviano Rodrigo Paz.
Cerimedo é suspeito de ter ordenado um atentado contra sua ex-companheira, a advogada Nadia Beller, baleada em 17 de agosto em Santa Cruz de la Sierra. A vítima sobreviveu ao ataque e, segundo o Ministério Público boliviano, teria apontado Cerimedo como o mandante. A situação levou à abertura de investigações por tentativa de feminicídio, lavagem de dinheiro e até mesmo envolvimento com voos clandestinos ligados ao narcotráfico.
A trajetória de Cerimedo, que se apresentava como um self-made man com formação em Harvard e treinamento com os Navy SEALs, começou a ser desconstruída por investigações jornalísticas. Relatos indicam um passado com empregos diversos, incluindo taxista e professor, além de uma condenação por fraude na Argentina em 2016. Foi a partir de 2018 que ele passou a atuar em campanhas políticas online, ganhando notoriedade com a disseminação de teorias conspiratórias e desinformação eleitoral.
A ascensão de um estrategista da desinformação
Fernando Cerimedo ganhou projeção internacional ao disseminar desinformação sobre o sistema eleitoral brasileiro após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022, em uma transmissão intitulada “Brasil Foi Roubado”. Em 2023, assumiu a comunicação digital da campanha de Javier Milei, na Argentina, onde teria sugerido o uso simbólico da motosserra. Sua proximidade com o universo de Donald Trump lhe rendeu o apelido de “o homem MAGA da América Latina” pela revista The Economist.
Desconfiança de antigos aliados políticos
Com a prisão de Cerimedo, seus antigos aliados políticos começaram a se distanciar. Javier Milei declarou não ter “qualquer ligação” com o estrategista desde 2023, denunciando um “esquema castrochavista”. Rodrigo Paz, presidente da Bolívia, também buscou se desvincular, afirmando que nunca teve um contrato formal ou relação de trabalho direta com Cerimedo, apesar de registros oficiais da Casa Rosada mostrarem que o argentino entrou na sede da presidência argentina treze vezes entre dezembro de 2023 e junho de 2024.
Uma rede que transcende fronteiras
O caso boliviano também expôs uma rede de influenciadores e estrategistas digitais que atuam em diversos países da América Latina. A presidente mexicana Claudia Sheinbaum e o ex-presidente colombiano Gustavo Petro já acusaram Cerimedo e redes internacionais da direita de manipulação política e protestos antigovernamentais. A atuação de Cerimedo, que não ocupava cargos públicos formais, exemplifica como consultores e estrategistas podem exercer influência política significativa ao atravessar fronteiras.
Investigações e acusações na Bolívia
As investigações na Bolívia apontam Cerimedo como o “provável mentor e articulador público” por trás da tentativa de feminicídio. O Ministério Público aponta que ele teria convencido Nadia Beller a ir ao hotel onde ocorreu o atentado, utilizando a relação afetiva entre eles. Buscas em imóveis ligados a Cerimedo revelaram grandes quantias em dinheiro em diferentes moedas, o que levou à abertura de uma investigação por lavagem de dinheiro. Paralelamente, apura-se o possível envolvimento com narcotráfico, com base em declarações da própria Nadia Beller.