A indústria de Manaus na disputa pelo próximo pneu da sua moto
O mercado de pneus para motocicletas vive um momento de intensa disputa, com o avanço significativo dos produtos importados, em especial da China, gerando preocupações para a indústria nacional. A Zona Franca de Manaus (ZFM), um polo industrial estratégico para o setor de duas rodas, sente diretamente essa pressão, que levanta questionamentos sobre como manter a competitividade sem comprometer a capacidade produtiva e os investimentos no país.
A decisão de compra de um motociclista, muitas vezes usuário do veículo para trabalho, é fortemente influenciada pelo preço. Diante de um cenário econômico que exige cautela com os gastos, a oferta de pneus importados a preços mais baixos ganha espaço, mas acende um alerta para os fabricantes que operam no Brasil.
Os números recentes indicam uma mudança expressiva no mercado. Segundo a Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip), as importações de pneus de passeio, comerciais leves e carga registraram um crescimento de 58,3% entre janeiro e agosto de 2026, enquanto as vendas internas dos fabricantes nacionais para reposição caíram 13,3% no mesmo período. A China lidera essa expansão, respondendo por 81% das importações de pneus de passeio, conforme dados compilados pelo ComexStat.
Pneus de Motos: Importações Crescem, Produção Nacional Perde Espaço
No segmento de motocicletas, a dinâmica não é diferente e merece atenção especial. As importações de pneus para motos aumentaram 26,2%, enquanto as vendas nacionais para reposição sofreram uma queda de 3,7%. Essa tendência fez com que a participação dos produtos estrangeiros no mercado de reposição de pneus de moto subisse de 27% para 33%. Embora a produção brasileira ainda predomine, é inegável a perda de participação diante da concorrência internacional.
Manaus no Centro da Disputa: Michelin e Etor Pneus Sob Pressão
A relevância deste tema para Manaus é amplificada pelo fato de a cidade abrigar o segmento de duas rodas do Polo Industrial de Manaus (PIM). A região conta com a tradicional operação da Michelin e, mais recentemente, com a nova estrutura industrial da Etor Pneus, marca ligada ao Grupo Cairu. A Etor anunciou o início da fabricação de composto de borracha em julho de 2026, um avanço importante, embora ainda distinto da produção em larga escala de pneus acabados.
A presença dessas fábricas destaca um aspecto menos visível do PIM. A força de uma cadeia produtiva não se mede apenas pelo desempenho das montadoras, mas também pelas oportunidades que chegam aos fabricantes de componentes. Cada motocicleta vendida representa uma demanda potencial de manutenção ao longo dos anos, e a disputa pela atenção desses consumidores nas futuras trocas de pneus é crucial para o sucesso do mercado.
Desafios Logísticos e Econômicos para a Indústria Amazonense
A pressão competitiva afeta diretamente o preço, a margem de lucro e a escala de produção das empresas. Quando as fábricas vendem menos, a distribuição de custos fixos entre as unidades produzidas torna-se mais difícil. A necessidade de reduzir preços para manter clientes pode, por sua vez, diminuir os recursos disponíveis para modernização e investimentos. Esses são mecanismos econômicos que podem impactar as operações locais, embora os dados nacionais não permitam atribuir perdas específicas às fábricas de Manaus.
Além da concorrência internacional, as indústrias em Manaus enfrentam desafios logísticos adicionais. O escoamento e o abastecimento na região dependem fortemente dos rios, e períodos de vazante amazônica elevam os custos logísticos, complicando o planejamento operacional frente aos concorrentes estrangeiros que acessam os portos brasileiros por rotas marítimas mais diretas.
Impacto no Emprego e a Necessidade de Competitividade
A dinâmica econômica do setor de pneus reflete diretamente no mercado de trabalho do Amazonas, onde o PIM é um motor fundamental de empregos formais. A perda de espaço para produtos importados na cadeia de componentes gera preocupações sobre a sustentabilidade dos postos de trabalho locais. Garantir a competitividade dessas fábricas é, portanto, uma estratégia essencial para proteger empregos de técnicos, operadores e especialistas que dependem da atividade fabril no estado.
É importante notar que a diferença de preço entre produtos nacionais e importados nem sempre decorre de irregularidades. Fatores como escala de fabricação, produtividade, câmbio, frete e estratégia comercial influenciam o valor final. A Anip tem denunciado condições que considera desleais, enquanto importadores defendem sua participação como fonte de concorrência, diversidade e preços acessíveis. A análise desses interesses exige evidências, sem que a origem do produto determine automaticamente seu julgamento de qualidade.
Histórico Recente e o Futuro dos Pneus em Manaus
O histórico recente da Michelin evidencia as consequências dessa disputa. No final de 2025, a empresa encerrou a fábrica de Guarulhos, que produzia câmaras de ar para motos e bicicletas, entre outros itens, citando a concorrência asiática e a inviabilidade econômica da operação. A unidade de Manaus, contudo, permanece ativa, demonstrando a importância estratégica da região.
Outro episódio relevante ocorreu em fevereiro de 2026, quando o governo encerrou, sem julgamento de mérito, a revisão do antidumping sobre pneus de bicicleta da China, Índia e Vietnã, por considerar comprometida a confiabilidade dos dados apresentados pela Michelin. A empresa contestou a decisão, ressaltando o fornecimento das informações solicitadas.
A nova operação da Etor no PIM adiciona uma nova perspectiva. Enquanto uma fábrica estabelecida enfrenta um mercado mais disputado, um novo investimento busca consolidar seu espaço. Para o Amazonas, isso reforça a necessidade de acompanhar de perto a implantação das fábricas e suas condições de competir, avaliando produtividade, qualificação profissional, abastecimento, logística e acesso aos clientes.
Elevar barreiras à importação pode ser parte do debate, mas não substitui a necessidade de uma agenda focada em eficiência. O consumidor busca preços acessíveis, produtos seguros e informações claras sobre durabilidade e garantia. A indústria, por sua vez, necessita de condições de concorrência justas e de eficiência para conquistar e fidelizar o comprador.
O interesse do Amazonas reside em transformar a expansão do setor de duas rodas em oportunidades duradouras para toda a cadeia produtiva. Acompanhar apenas o volume de motocicletas produzidas deixa de fora uma parte crucial dessa história: a fabricação das peças que mantêm esses veículos em circulação e que geram empregos e desenvolvimento local.