O passado e o futuro do saneamento em Manaus: da luta pelo acesso à água à recuperação dos igarapés
Manaus, uma cidade intrinsecamente ligada aos seus rios e igarapés, tem uma longa jornada na busca por saneamento básico. A história da capital amazonense é marcada por desafios persistentes, soluções inovadoras e um futuro promissor na garantia de água potável e tratamento de esgoto para seus cidadãos.
Ao longo de mais de um século, diferentes gestões e empresas trabalharam para expandir o acesso à água e organizar a coleta de esgoto. Apesar dos avanços significativos, especialmente na universalização do abastecimento de água tratada, a expansão do tratamento de efluentes e a recuperação dos corpos d’água continuam sendo prioridades urgentes.
As soluções encontradas para atender áreas de difícil acesso, como becos e palafitas, demonstram a capacidade de adaptação da engenharia às peculiaridades da geografia manauara. Conforme informações divulgadas pela concessionária Águas de Manaus, a cidade alcançou em 2026 a marca de mais de 99% da população atendida com água tratada, enquanto o esgotamento sanitário atingiu cerca de 42%, com a meta ambiciosa de chegar a 90% até 2033.
Uma história centenária de desafios e avanços
As primeiras discussões sobre saneamento em Manaus datam do século XIX. Em 1889, a região da Cachoeira Grande foi escolhida para o abastecimento da cidade. Naquela época, os igarapés eram parte integrante da vida cotidiana, utilizados para banho, lavagem de roupas e lazer, como relembra a moradora Roberta Teixeira, que na década de 1990 ainda frequentava locais como a Ponta da Bolívia e o Tarumã.
Com o crescimento urbano, a necessidade de um sistema de esgotamento se tornou premente. Em 1906, um projeto para a cidade, então com cerca de 60 mil habitantes, previa a implantação de uma rede coletora. No entanto, as ligações domiciliares não foram totalmente implementadas, e o despejo de resíduos continuou em fossas, valas e cursos d’água, gerando preocupações ambientais já no início do século passado.
A criação da Companhia de Saneamento do Amazonas (Cosama) no final dos anos 1960 marcou outra etapa na organização do setor. Estruturas como a Estação de Tratamento de Água (ETA) da Ponta do Ismael foram planejadas para uma população muito menor do que a que Manaus viria a concentrar anos depois, evidenciando a escala crescente do desafio.
Soluções adaptadas à realidade manauara
A chegada da Águas de Manaus em meados de 2018 encontrou cerca de 200 mil pessoas sem acesso à água tratada, muitas em áreas vulneráveis. A implantação de infraestrutura em locais como becos e palafitas exigiu soluções específicas. Em áreas de palafitas, por exemplo, as tubulações acompanham as variações do nível dos rios, com hidrômetros instalados em posições elevadas para facilitar a leitura e evitar danos.
A instalação de redes de esgoto em palafitas, como no Beco do Nonato, demandou trabalho manual para não comprometer a estrutura das moradias. A rede fica exposta sob as casas, facilitando a manutenção e permitindo a conexão com a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Educandos. Moradores como Ivone Dantas, residente há mais de 40 anos no Beco do Nonato, testemunham a melhora na qualidade de vida e a recuperação do igarapé após a implantação do sistema.
No Beco São Vicente, no bairro Redenção, a artesã Lilian Gonçalves de Moraes, moradora há 40 anos, relata a melhora significativa com a chegada da água regularizada e, posteriormente, do esgoto. A diminuição do mau cheiro e da presença de animais indesejados são benefícios diretos para a comunidade.
Saneamento como ferramenta de dignidade e avanço tecnológico
A expansão do saneamento em Manaus também é vista como um fator de inclusão social. A concessionária destaca iniciativas como a Tarifa Manauara e a tarifa social, que buscam tornar o serviço acessível às famílias de baixa renda. Para algumas famílias, a conta de água tornou-se o primeiro comprovante de endereço, facilitando o acesso a serviços bancários e de crédito.
A redução das perdas de água, que caiu de aproximadamente 75% em 2018 para 45% em 2026, é outro avanço importante. Isso foi alcançado com a regularização do abastecimento e o uso de tecnologias para localizar vazamentos subterrâneos, incluindo análise por satélite e monitoramento em tempo real por meio de sistemas automatizados e inteligência artificial.
Diante de períodos de seca mais severos, a empresa aprofundou estruturas de captação e instalou bombas móveis para garantir o abastecimento contínuo mesmo com o nível baixo do Rio Negro, buscando preparar o sistema para as mudanças climáticas.
O futuro dos igarapés e a meta de 2033
A expansão da coleta e tratamento de esgoto é o grande foco para o futuro, com o programa Trata Bem Manaus visando alcançar 90% de cobertura até 2033. A geografia da cidade, com seus igarapés e relevo acidentado, exige a adoção de sistemas de tratamento menores e distribuídos, em vez de grandes estações centralizadas.
A recuperação dos igarapés é vista como um dos principais legados do saneamento. A ampliação do esgotamento sanitário contribuirá para a melhora da qualidade da água nos cursos d’água, com o objetivo de devolver à população o direito de usufruir desses espaços, resgatando a beleza e a funcionalidade que foram degradadas ao longo do tempo.
O futuro do saneamento em Manaus é a garantia de água tratada e esgoto coletado e tratado para todos os seus habitantes, permitindo a recuperação ambiental e a melhoria da qualidade de vida, transformando a relação da cidade com seus valiosos recursos hídricos.