Polícia Civil do Rio de Janeiro desvenda tentativa do Comando Vermelho de criar um “comando nacional do crime”, com alianças estratégicas envolvendo o PCC e outras facções criminosas em todo o país.
Uma investigação da Polícia Civil do Rio de Janeiro (PCERJ) trouxe à tona uma audaciosa tentativa do Comando Vermelho (CV) de articular a criação de um “comando nacional do crime”. A iniciativa visava estabelecer alianças com outras facções criminosas, incluindo o Primeiro Comando da Capital (PCC), buscando uma coordenação entre grupos distintos em diferentes estados.
O plano, segundo os investigadores, previa acordos de cooperação mútua e a divisão de áreas de atuação, demonstrando uma ambição de unificação e fortalecimento do poder criminoso em território nacional. A PCERJ aponta que essa articulação, embora tenha enfrentado dificuldades, revela uma estratégia que pode ser reativada pelas organizações.
As informações detalhadas fazem parte da Operação Contenção Red Legacy, que não só desvendou essa tentativa de “comando nacional do crime”, mas também revelou a existência de um estatuto interno do CV e uma estrutura hierárquica formalizada. Essa descoberta, conforme divulgado pela PCERJ, demonstra o alcance e a organização da facção, que busca consolidar seu poder em larga escala.
Estatuto Revela Hierarquia e Conselho Nacional do CV
A investigação da PCERJ identificou um estatuto interno do Comando Vermelho que detalha uma estrutura hierárquica formal. Segundo o documento, o traficante Márcio dos Santos Nepomuceno, conhecido como Marcinho VP, é apontado como o presidente do conselho da organização. Essa liderança se mantém mesmo após mais de três décadas de prisão em presídios federais, evidenciando a influência e o controle que a facção exerce.
Acordo de Paz e Cooperação Firmado em Fevereiro de 2025
O delegado Pedro Cassundé, da Delegacia de Combate ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro, detalhou que a tentativa de articulação vinha ocorrendo há algum tempo. “Percebemos que o Comando Vermelho já vinha tentando, há algum tempo, coligar siglas diferentes para estabelecer um comando nacional de organização criminosa”, afirmou Cassundé. Ele confirmou que um acordo foi efetivamente firmado em 22 de fevereiro de 2025, selando um “acordo de paz e ajuda mútua nas fronteiras do país”.
Conflitos Internos e a Fragilidade da União
Apesar do acordo firmado, a articulação para o “comando nacional do crime” enfrentou obstáculos internos significativos. O delegado Cassundé explicou que, por envolver grupos distintos, a iniciativa acabou se enfraquecendo após conflitos entre as próprias facções. “A gente reconhece que eles entraram em conflitos. Os próprios diálogos e sanções aplicadas levaram a alguns homicídios, e isso acabou se diluindo”, relatou.
Estratégia Pode Ser Reativada, Alertam Investigadores
Apesar do fracasso aparente da tentativa de “comando nacional do crime”, os investigadores alertam para a possibilidade de novas iniciativas. “Essa foi uma tentativa. Isso quer dizer que eles podem tentar de novo”, ressaltou o delegado. A descoberta de um porta-voz e mediador de conflitos, Arnaldo da Silva Dias, conhecido como Naldinho ou Samurai, preso em Catanduvas (SC), reforça a complexidade da estrutura e a capacidade de articulação da facção.
Alcance Nacional e Internacional do CV e Risco “Narcoterrorista”
O secretário da PCERJ, Felipe Curi, destacou o alcance e a organização do Comando Vermelho, afirmando que “temos provas de que o Comando Vermelho se aliou ao PCC e também a diversas outras facções criminosas atuantes em todo o país”. Curi defendeu que tais organizações sejam tratadas como grupos narcoterroristas, dada a sua “grande nocividade”.
A investigação também revelou conexões nacionais e internacionais da facção, além de um esquema complexo de lavagem de dinheiro, que inclui o uso de fintechs. A Operação Contenção Red Legacy resultou na prisão do vereador Salvino Oliveira (PSD) e de seis policiais militares suspeitos de envolvimento com o CV. A Polícia Militar afirmou que “não tolera desvios de conduta ou crimes cometidos por seus integrantes” e que pune rigorosamente os responsáveis.