Instalação ‘Fora de Vista’ em Manaus Expõe Dificuldades da Arte Amazônense
Uma obra inovadora em Manaus convida o público a refletir sobre as complexidades da produção artística no estado. A instalação ‘Fora de Vista’, do artista amazonense Ricardo Libertino, utiliza a própria ausência e as limitações como matéria-prima para sua exposição, que tem entrada gratuita na Casa das Artes.
A proposta de Libertino, conhecida por suas ações conceituais e experimentais, nasceu da frustração de não conseguir realizar a exposição originalmente planejada. Em vez de simplesmente adaptar seu projeto, o artista decidiu fazer da interrupção o ponto central de sua nova obra, transformando um obstáculo em uma poderosa declaração artística.
A exposição, que abriu nesta sexta-feira (18), é uma imersão em um espaço que evoca a precariedade e os desafios enfrentados por artistas na região. Conforme divulgado na fonte, a obra reflete sobre os obstáculos enfrentados por quem produz arte no Amazonas, um tema crucial para o cenário cultural local.
A Experiência Imersiva de ‘Fora de Vista’
A instalação ocupa uma sala de 5m x 5m na Casa das Artes, no centro histórico de Manaus. O espaço é completamente revestido por plástico preto, envolto em uma névoa constante e iluminado por luz roxa. Para ter acesso à obra, o visitante precisa se aproximar e observar através de pequenos furos no plástico, recebendo apenas visões fragmentadas.
O interior da sala não exibe obras finalizadas, mas sim os materiais e estruturas do que seria apresentado. Estão presentes moldes, protótipos, caixas de armazenamento, vidros recortados, quadros e esculturas embalados, além de outros itens de montagem. Essa escolha intencional reforça a ideia de um processo em andamento e das dificuldades inerentes a ele.
Uma planta viva também faz parte da instalação, com a proposta de crescer ao longo dos três meses de exposição, simbolizando a persistência e o desenvolvimento mesmo em condições adversas. O artista utiliza máscaras em suas aparições, intensificando a narrativa sobre recusa, inibição e a impossibilidade de visualização completa.
Reflexão Crítica sobre o Sistema Artístico
Ricardo Libertino explica que ‘Fora de Vista’ aborda a precariedade estrutural da produção artística no Amazonas. Ele destaca o sistema de mercado e validação concentrado no eixo Rio-São Paulo, que frequentemente torna outras regiões invisíveis ou menos legitimadas.
A obra também evidencia as negociações institucionais que definem o que pode ou não ser mostrado, além das tensões políticas que afetam a circulação da arte contemporânea na região. A instalação, portanto, funciona como um espelho das dificuldades da produção artística no estado.
‘Contracatálogo’: Uma Extensão Crítica da Obra
Acompanhando a instalação, foi produzida uma publicação independente chamada ‘Contracatálogo’. Disponível em versão digital através de um QR Code na entrada da sala, a obra reúne textos de Ricardo Libertino, da artista Bruna Mazzotti, do artista-pesquisador Ícaro Moreno e do poeta Beto Oliveira (Margem do Rio).
O ‘Contracatálogo’ também inclui rascunhos e desenhos de Mayara Jansen e Teti Belém. Uma edição impressa, com tiragem limitada e realizada em serigrafia, será lançada posteriormente e estará disponível para comercialização. Segundo o artista, esta publicação atua como uma extensão crítica de ‘Fora de Vista’, oferecendo perspectivas distintas sobre o projeto.
A Arte Como Resistência no Amazonas
Libertino, que já expôs no Brasil, Estados Unidos, França e Japão, transforma a limitação física e institucional em uma oportunidade de debate. A instalação ‘Fora de Vista’ não é apenas uma exposição, mas um ato de resistência e um convite à reflexão sobre a realidade da arte amazônense.
A obra convida o público a questionar os mecanismos de visibilidade e legitimação no mundo da arte, especialmente em regiões fora dos grandes centros. A dificuldade da produção artística no Amazonas é colocada em evidência de forma poética e contundente.