O avanço do tráfico de drogas pelos rios tem impulsionado a violência no interior do Amazonas, conforme aponta um estudo recente. As hidrovias amazônicas, antes vistas como vias de comunicação e sustento, transformaram-se em corredores para o tráfico internacional de cocaína, conectando países produtores à capital Manaus e, de lá, para o restante do Brasil e exterior.
Um estudo divulgado em março pelo projeto Amazônia 2030, intitulado “Da exploração ilegal de recursos naturais ao tráfico internacional de cocaína: padrões de violência na Amazônia brasileira”, revela um alarmante aumento nos índices de homicídios e uma presença cada vez maior do crime organizado em municípios do estado.
Essa mudança de rota, segundo a pesquisa, começou a se intensificar nos anos 2000. Com o aumento dos custos e a repressão ao tráfico aéreo, organizações criminosas migraram suas operações para as rotas fluviais, explorando a vasta malha hídrica da região. A pesquisa aponta que essa transição para o modal fluvial intensificou-se a partir de 2010.
As consequências dessa migração são devastadoras. Áreas antes isoladas passaram a integrar a rede do tráfico, incluindo comunidades ribeirinhas e cidades do interior. Essa expansão da atividade criminosa está diretamente ligada ao aumento da violência local, transformando a dinâmica social e a segurança dessas populações.
O ciclo vicioso da violência e do crime organizado
O relatório do Amazônia 2030 destaca que a violência na região não se restringe apenas ao tráfico de drogas. Ela está intrinsecamente ligada a um conjunto de atividades ilegais que coexistem e se retroalimentam. Entre elas, destacam-se a grilagem de terras, a exploração ilegal de madeira, a mineração de ouro e a forte atuação de facções criminosas.
Municípios como Lábrea, São Gabriel da Cachoeira, Japurá, Barcelos e Canutama são apontados como áreas de **risco acumulado**. Isso significa que essas cidades concentram múltiplos fatores de vulnerabilidade, o que as torna alvos fáceis para a expansão do crime e eleva significativamente o risco de violência.
O estudo é categórico ao afirmar que os locais com a presença de três ou quatro desses fatores de risco apresentaram um **crescimento mais intenso nos homicídios** nos últimos anos, em comparação com áreas que não enfrentam essa mesma sobreposição de problemas criminais.
Facções criminosas expandem domínio fluvial
A pesquisa também evidencia a consolidação da presença de grandes facções criminosas brasileiras na região amazônica desde meados da década de 2010. Grupos como o **Comando Vermelho (CV)** e o **Primeiro Comando da Capital (PCC)** têm ampliado seu alcance e controle sobre as rotas fluviais e os territórios.
Essa disputa por rotas de escoamento e por controle territorial tem intensificado os conflitos, especialmente em cidades menores e em áreas próximas a atividades ilegais. A violência, antes mais associada a disputas por terra e recursos naturais, agora está diretamente conectada a **redes do crime organizado com atuação internacional**.
Novas estratégias para combater o crime
Diante desse cenário complexo, os pesquisadores do Amazônia 2030 alertam que as medidas tradicionais de fiscalização ambiental e regularização fundiária já não são suficientes para conter o avanço do crime. É fundamental uma abordagem integrada.
Segundo o estudo, é **necessário integrar ações de segurança pública, controle efetivo do território e combate robusto ao crime organizado**. Essa nova estratégia deve considerar a realidade específica dos municípios do interior e das comunidades ribeirinhas, que são as mais afetadas pela violência gerada pelo tráfico fluvial.
O g1 entrou em contato com a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas para obter informações sobre as medidas adotadas para enfrentar o avanço das facções e do tráfico de drogas no estado, e se há estratégias específicas para os municípios mais vulneráveis do interior. A reportagem aguarda retorno.