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Política

Evangélico de Verdade Não Vota na Esquerda? Pastores Divergem Sobre Identidade e Fé no Brasil

Evangélico de Verdade Não Vota na Esquerda? Pastores Divergem Sobre Identidade e Fé no Brasil

Pastores evangélicos debatem se fé e esquerda são incompatíveis, com opiniões divididas sobre o que define um “evangélico de verdade”.

A afirmação de que um evangélico que vota na esquerda não é “evangélico de verdade”, feita pelo ex-deputado Eduardo Cunha, ecoou entre líderes religiosos influentes. Essa visão encontra forte adesão, alargando a distância entre igrejas e a esquerda, mas a ideia de que votar em progressistas descredenciaria alguém como fiel genuíno divide opiniões.

A polarização política tem intensificado o debate sobre a identidade do eleitor evangélico. Enquanto alguns pastores veem uma incompatibilidade intrínseca entre valores cristãos e ideologias de esquerda, outros ponderam que as necessidades sociais e a gratidão por programas assistenciais podem influenciar o voto, sem necessariamente comprometer a fé.

Essa divergência de pensamento reflete a complexidade do eleitorado evangélico brasileiro, que é diverso em suas origens socioeconômicas e experiências de vida. A discussão levanta questões importantes sobre como a fé se manifesta nas urnas e quais fatores moldam as escolhas políticas dos fiéis. Essa análise foi divulgada pelo jornal Folha de S.Paulo.

A ascensão do bolsonarismo e a incompatibilidade de valores

A tese de que votar na esquerda desqualifica um fiel como “evangélico de verdade” ganhou força com a ascensão do bolsonarismo. O bispo Renato Cardoso, genro de Edir Macedo, explicitou essa visão em 2022, argumentando em um texto que era “impossível ser cristão e ser de esquerda”. Ele apontou que ideologias de esquerda buscam minar o “casamento convencional” e incentivar o “uso de drogas”, o que seria incompatível com os ensinamentos de Jesus Cristo.

Cardoso, esperado no evento “Família ao Pé da Cruz” promovido pela Igreja Universal do Reino de Deus, comparou o desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem a Lula a uma “lata de conservas da família”, em referência a uma ala que criticava os “neoconservadores em conserva”. O pastor Silas Malafaia também se alinha a essa linha de pensamento, afirmando que um fiel “formado por crenças, valores e caráter jamais pode votar em alguém que combate nossos princípios”.

O voto por gratidão e a “falta de conhecimento”

Malafaia, contudo, não desqualifica totalmente o eleitor de esquerda. Ele lamenta que parte do segmento, especialmente os mais pobres por questões culturais, acabe votando em Lula, mas considera essa minoria. O pastor atribui essa escolha a uma “falta de conhecimento” sobre as reais propostas do PT, que, segundo ele, reproduz discursos contra a “família, costumes e pátria”, algo que não ocorria quando ele e Edir Macedo já apoiaram Lula no passado.

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O ex-presidente da bancada evangélica, Sóstenes Cavalcante, estima que apenas 20% dos evangélicos optam pela esquerda, devido a “pautas antagônicas” ao cristianismo. Institutos de pesquisa indicam que cerca de 3 em cada 10 eleitores evangélicos escolheram Lula em 2022. Esse dado ganha nuances ao considerar que a base evangélica é majoritariamente pobre, negra e feminina, perfis que também compõem o eleitorado lulista.

Necessidades sociais e a visão pragmática do voto

Alguns líderes religiosos, como o bispo Robson Rodovalho, da igreja Sara Nossa Terra, não veem aberração teológica em evangélicos de esquerda. Ele argumenta que, na prática, a “ideologia evangélica” pode ter ruídos com o voto à esquerda, mas a realidade financeira explica essa predileção. Rodovalho encontrou milhares de fiéis, especialmente mulheres mais simples, que votam no PT por dependerem de benefícios sociais como o Bolsa Família.

Para ele, essas pessoas não deixam de ser devotas legítimas da fé cristã. “Essas pessoas não põem a doutrina bíblica acima das suas necessidades”, afirma. O deputado federal Otoni de Paula sugere que essa parcela não é “esquerdista”, mas sim “lulista”, identificando-se com a pessoa do presidente e não com a ideologia. Ele destaca que o governo Lula não enviou pautas consideradas “bomba” para conservadores, como aborto ou liberação de drogas, e que as derrotas conservadoras vieram mais do STF do que do presidente.

Convergências e divergências na periferia da ideologia

O pastor Teo Hayashi, do movimento missionário Dunamis, reconhece que a “ideologia marxista entra em conflito com a Bíblia”, citando a conhecida frase de Karl Marx sobre a religião ser o “ópio do povo”. No entanto, ele aponta que “na periferia da ideologia”, pode haver convergência entre o cristianismo de cuidado do próximo e o viés de cuidado da esquerda. Em sua igreja, há pessoas de esquerda, e ele não orienta a votar apenas na direita.

O apóstolo Estevam Hernandes, idealizador da Renascer em Cristo e da Marcha para Jesus, também não exclui fiéis que preferem candidatos progressistas. Ele defende que “as opções de voto do cristão são determinadas por suas convicções e por princípios cristãos, podendo votar na direita ou esquerda, o que não determina ser ou não um verdadeiro cristão”. Essa diversidade de pensamento sublinha a complexidade do eleitorado evangélico e a dificuldade em generalizar suas escolhas políticas.

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