Estudo inédito no Brasil revela associação alarmante entre dengue e Síndrome de Guillain-Barré, aumentando o risco em até 17 vezes.

O Brasil enfrentou a maior epidemia de dengue de sua história recente em 2024, registrando cerca de 6,5 milhões de casos. Embora 2025 tenha mostrado uma redução, a circulação do vírus continua alta, com projeções indicando aproximadamente 2 milhões de casos para 2026.

A maioria dos infectados apresenta sintomas clássicos como febre e dores no corpo. Contudo, um pequeno grupo desenvolve a Síndrome de Guillain-Barré (SGB), uma complicação neurológica rara. Essa conexão foi o foco de um estudo recente publicado no New England Journal of Medicine.

A pesquisa, baseada em dados do SUS, demonstra que pessoas com dengue têm um risco significativamente maior de desenvolver SGB nas seis semanas seguintes à infecção. Conforme informação divulgada pela Fiocruz e publicada na The Conversation, os dados analisados revelam um aumento de 17 vezes no risco para a SGB. Essa descoberta reforça a importância da vigilância e do rápido atendimento médico.

O que é a Síndrome de Guillain-Barré?

A SGB é uma condição rara onde o sistema imunológico ataca os nervos periféricos, geralmente após infecções. Isso causa fraqueza muscular progressiva, que pode iniciar nas pernas e subir para braços e rosto. Em casos graves, pode levar à paralisia e necessidade de suporte respiratório.

A suspeita dessa ligação entre dengue e SGB não é nova, com relatos desde 1998. No entanto, o estudo recente foi pioneiro ao quantificar essa relação em larga escala, utilizando três grandes bases de dados do SUS: hospitalizações, notificações de dengue e registros de óbitos.

Metodologia do Estudo e Riscos Elevados

Para analisar a conexão, os pesquisadores empregaram a estratégia de “série de casos autocontrolada”, comparando cada indivíduo consigo mesmo. Avaliou-se o risco de desenvolver SGB nas semanas após a dengue em comparação com um período de referência posterior.

Os resultados foram claros: o risco de SGB aumenta drasticamente após a infecção por dengue. Especificamente, o risco é cerca de **17 vezes maior nas semanas 1 a 6 após o início dos sintomas**. Esse risco é ainda mais concentrado nas duas primeiras semanas, chegando a ser aproximadamente **30 vezes maior**.

Após seis semanas do início dos sintomas da dengue, o risco de SGB retorna ao nível basal esperado. Em números absolutos, estima-se que para cada 1 milhão de casos de dengue, cerca de 36 pessoas desenvolvam a SGB. Essa relação entre arboviroses e problemas neurológicos já havia sido observada durante a epidemia de zika em 2015-2016.

Tratamento Precoce é Crucial para a Recuperação da SGB

O tratamento da Síndrome de Guillain-Barré é mais eficaz quando iniciado o mais cedo possível. O SUS oferece duas opções terapêuticas principais: a imunoglobulina intravenosa e a plasmaférese, um procedimento que filtra o sangue para remover anticorpos prejudiciais aos nervos.

A intervenção rápida é fundamental para interromper a progressão da doença e acelerar a recuperação. O Brasil conta com 136 Centros Especializados em Reabilitação que oferecem atendimento a pacientes com SGB na rede pública.

O principal desafio é o tempo. Sinais como fraqueza nas pernas, formigamento nos pés ou dificuldade para andar, especialmente após um episódio recente de dengue, necessitam de **avaliação médica imediata**. A pesquisa reforça a necessidade de entender os danos causados por arboviroses, que vão além dos sintomas iniciais.

Prevenção da Dengue e o Papel da Vacinação

A prevenção da dengue e de suas complicações, como a SGB, passa pelo controle do mosquito Aedes aegypti e pela vacinação. Eliminar focos de água parada, como vasos de plantas e pneus, continua sendo uma medida essencial para reduzir a transmissão do vírus.

A vacina contra a dengue, disponível no SUS desde 2024, inicialmente focada em adolescentes, busca expandir seu alcance. A aprovação de novas vacinas pelo Ministério da Saúde visa ampliar as faixas etárias, fortalecendo a estratégia de redução de casos e formas graves da doença.

A luta contra doenças transmitidas pelo Aedes aegypti é um esforço global que exige a colaboração entre governo, profissionais de saúde e a comunidade. A vigilância do vetor e a ampla cobertura vacinal são passos fundamentais para proteger a população de complicações como a Síndrome de Guillain-Barré.