A água, recurso vital, emerge como pivô em tensões geopolíticas no Oriente Médio, com ataques à infraestrutura de abastecimento se tornando tática de guerra entre EUA, Israel e Irã.
O conflito em curso no Oriente Médio, inicialmente focado em recursos energéticos como o petróleo, revela uma nova e preocupante dimensão: a disputa pela água potável. Analistas apontam que a infraestrutura hídrica da região, já sob intensa pressão, tornou-se um alvo estratégico, com potencial para escalar ainda mais as hostilidades.
A escassez hídrica é uma realidade severa no Golfo, onde apenas 2% das fontes globais de água doce renovável estão disponíveis. A dependência de métodos como a dessalinização, impulsionada pelo crescimento da indústria petrolífera desde os anos 1950, acentua a vulnerabilidade da região.
Países como Kuwait (90%), Omã (86%), Arábia Saudita (70%) e Emirados Árabes Unidos (42%) dependem massivamente da dessalinização para suprir suas necessidades hídricas, conforme indica o Instituto Francês de Relações Internacionais. Essa dependência estratégica transforma a infraestrutura de água em um ponto nevrálgico, passível de exploração em conflitos.
Conforme informações divulgadas pela BBC News Persa, a estratégia iraniana de “escalada horizontal” visa ampliar o escopo do conflito sem confronto direto, e os ataques à infraestrutura hídrica parecem se encaixar nessa tática. O professor Marc Owen Jones, da Universidade do Noroeste, no Catar, explica que a intenção é criar pânico e pressionar governos aliados aos EUA a buscar o fim da guerra.
Ameaças e Acusações Cruzadas na Guerra Hídrica
O Bahrein já acusou diretamente o Irã de atacar uma usina de dessalinização. Em contrapartida, o Irã alega que um ataque prévio dos Estados Unidos danificou uma usina de água na ilha de Qeshm. Ataques iranianos ao porto de Jebel Ali, nos Emirados Árabes Unidos, também estiveram próximos de grandes usinas de dessalinização.
Um incêndio suspeito ocorreu perto da Usina Independente de Energia e Água Fujairah F1, nos EAU, embora as autoridades assegurem que a operação não foi interrompida. A usina do Oeste de Doha, no Kuwait, teria sido afetada indiretamente por ataques a portos vizinhos ou pela queda de fragmentos de drones.
O Irã e a Vulnerabilidade Hídrica Regional
Para o Irã, esses incidentes funcionam como “jogos de sinalização”, segundo o professor Kaveh Madani, da Universidade das Nações Unidas. As ações iranianas são enquadradas como reações “justificadas” a ataques contra o país, especialmente os ataques ao Bahrein, justificados como retaliação ao dano na ilha de Qeshm.
Qualquer ataque à infraestrutura crítica de água demonstra a capacidade iraniana e sua disposição em responder a ações militares dos EUA e de Israel. No entanto, Madani sugere que o poder iraniano reside na ameaça de ataques mais direcionados e sustentados, mais do que em ações diretas.
Historicamente, a água “sempre foi usada como arma e ameaça”, segundo Madani. Ele aponta o Artigo 45 da Convenção de Genebra como um possível fator para a cautela iraniana em ataques diretos a usinas, e para o enquadramento deliberado de seus atos como retaliação.
Escassez Hídrica no Irã Agrava Tensões
O Irã, por sua vez, enfrenta sua própria crise hídrica, aproximando-se de um estado de “absoluta escassez de água”. Baixas chuvas, vazamentos em infraestrutura antiga e a guerra de 12 dias com Israel contribuíram para a situação, conforme o ministro da Energia iraniano, Abbas Aliabadi.
Represas em todo o país estão em “estado preocupante”, com aquíferos sobrecarregados e rios como o Zayandeh Rud diminuindo. O lago Urmia, no noroeste do país, encolheu drasticamente. Décadas de construção de barragens, agricultura intensiva em água e má gestão agravaram o problema, segundo ambientalistas.
A escassez hídrica no Irã tem sido um fator de instabilidade interna, alimentando protestos e misturando-se a queixas sobre o custo de vida e o ambiente político. As dificuldades hídricas do país também se cruzam com tensões regionais, incluindo disputas antigas com Afeganistão, Turquia e Iraque sobre rios compartilhados.
O Futuro dos Conflitos no Oriente Médio e a Água
A guerra atual destaca a fragilidade dos sistemas de abastecimento de água no Oriente Médio e como essa vulnerabilidade pode influenciar a duração e o curso dos conflitos. As pressões ambientais, somadas às reservas de petróleo e gás, aumentam o risco de escalada.
Futuros conflitos na região podem ser definidos não apenas por oleodutos e petroleiros, mas também por rios, aquíferos e usinas de dessalinização. Em cenários de guerra, a água pode se provar um recurso ainda mais estratégico e disputado que o petróleo.