Guerra no Irã Impulsiona Ações da Petrobras a Recordes, Gerando ‘Choque do Petróleo’ no Brasil
A escalada de tensões no Oriente Médio, desencadeada pela guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, tem provocado um impacto significativo nos mercados globais de energia. Especialistas apontam que o Brasil está vivenciando o terceiro “choque do petróleo” de sua história, um fenômeno que eleva os preços da commodity e, consequentemente, impulsiona o valor das ações da Petrobras.
A recente valorização das ações preferenciais PETR4 da Petrobras na Bolsa de Valores (B3) é um reflexo direto dessa disparada nos preços do petróleo. No entanto, analistas sugerem que essa corrida aos papéis da estatal não se deve unicamente ao cenário internacional. A retomada de investimentos exploratórios e a modernização do parque de refino da Petrobras também são fatores cruciais para o desempenho da empresa.
Essa análise é compartilhada por especialistas ouvidos pela BBC News Brasil. Eles destacam as oportunidades que a crise no Oriente Médio abre para a Petrobras, em um momento em que o Goldman Sachs classifica a situação como um autêntico choque do petróleo. Diferentemente de crises anteriores, o Brasil hoje se encontra em posição de autossuficiência na produção de petróleo bruto, atuando como exportador. Conforme divulgado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a produção brasileira de petróleo e gás natural atingiu um recorde em fevereiro, com 5,304 milhões de barris de óleo equivalente por dia (boe/d). Essa informação foi divulgada na quarta-feira (1º).
Petrobras em Alta: Produção Recorde e Autossuficiência em Foco
A produção recorde de fevereiro pela Petrobras abre novas perspectivas para o país. A presidente da estatal, Magda Chambriard, indicou que a empresa cogita atingir a autossuficiência em diesel em cinco anos, um objetivo ambicioso que visa suprir a demanda nacional. A declaração ocorreu na quarta-feira (1º).
Essa possibilidade surge em um contexto de preocupação com o abastecimento de diesel em algumas regiões do Brasil, como Rio Grande do Sul e Mato Grosso, onde o insumo é vital para o agronegócio. A situação gerou reações, incluindo a indignação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva diante de um leilão de gás liquefeito de petróleo (GLP) com preços elevados, que ele classificou como “cretinice” e “bandidagem”.
A alta do petróleo, intensificada pela guerra no Irã, pode trazer benefícios para a economia brasileira, como o aumento das exportações e das receitas tributárias, além de dividendos para o Tesouro Nacional. Contudo, o país ainda depende da importação de derivados como diesel, gasolina e querosene de aviação. Essa dependência ressalta a importância da meta de autossuficiência em diesel estabelecida pela Petrobras.
Análise do Desempenho das Ações e o Cenário Econômico
O preço das ações da Petrobras, historicamente sensível a fatores externos e internos, tem apresentado uma recuperação notável desde janeiro de 2023. O economista Mahatma Ramos, do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra, vinculado à Federação Única dos Petroleiros (FUP), observa essa tendência. Ele relembra que, em abril de 2021, PETR4 valia R$ 23, chegando a R$ 32 em meados de 2022, impulsionada pela guerra na Ucrânia, mas com quedas posteriores devido a incertezas políticas.
A guerra no Irã teve um impacto direto e perceptível na cotação das ações PETR4. Na sexta-feira, 27 de fevereiro, antes do início dos ataques, a ação fechou a R$ 39,33. Em 2 de março, após o fim de semana, abriu a R$ 41,30 e fechou a R$ 41,13, registrando uma valorização de 4,58%. Nos 22 dias úteis seguintes, as ações da Petrobras fecharam em alta em 15 pregões, atingindo R$ 47,29 em 1º de abril, uma valorização de cerca de 20% em um mês. Paralelamente, o barril de petróleo Brent, referência para o setor, subiu de US$ 73,25 em 27 de fevereiro para US$ 107,94 em 2 de abril, com picos de US$ 116,25 em 9 de março, quando a ameaça de bloqueio do estreito de Ormuz pelo Irã se tornou clara.
Maurício Weiss, professor da UFRGS, descreve o comportamento das ações da Petrobras como uma “síntese de fatores conjunturais e estruturais”. Ele ressalta que a empresa já vinha demonstrando um desempenho notável em termos de produtividade e lucratividade antes da guerra, com um aumento de lucro de quase 200% em 2024, superando R$ 110 bilhões, impulsionado pela produção do pré-sal.
Desafios e Oportunidades: O Futuro da Petrobras e a Transição Energética
O valor de uma empresa, segundo o economista Cloviomar Cararine, do Dieese, não é puramente objetivo, mas resultado da confluência de análises operacional, política e de mercado. A Petrobras, maior empresa da América Latina em valor de mercado, teve seu perfil transformado pela exploração do pré-sal. No entanto, a empresa também enfrentou escândalos de corrupção investigados pela Operação Lava-Jato, que impactaram sua imagem e gestão.
A gestão da Petrobras passou por mudanças significativas, incluindo a política de Preço de Paridade de Importação (PPI), venda de ativos e abertura ao capital estrangeiro. Essas medidas foram antecedentes da greve dos caminhoneiros em 2018 e da alta dos combustíveis em 2022. O governo Lula, eleito com a promessa de sepultar o PPI, tem buscado medidas mitigadoras para conter a alta dos preços dos combustíveis, como a redução de impostos sobre o diesel e subsídios.
Cararine alerta que eventos como a eleição de Donald Trump e a guerra no Irã evidenciam a dependência mundial dos combustíveis fósseis. Enquanto isso, a China investe na diversificação de sua matriz energética. Ele sugere que a Petrobras deve considerar esses cenários e se converter de uma empresa petrolífera para uma empresa de energia, equilibrando a demanda por combustíveis fósseis com o crescente interesse por energia limpa, o que definirá o futuro da transição energética global.