V-Dem: EUA caminham rapidamente para a autocracia, superando Hungria e Turquia em velocidade de regressão democrática
Os Estados Unidos estão em uma trajetória preocupante em direção à autocracia, avançando em um ritmo mais acelerado do que países como Hungria e Turquia. Essa é a constatação alarmante feita pelo Instituto Variedades da Democracia (V-Dem), uma das mais respeitadas entidades internacionais dedicadas ao monitoramento da saúde democrática global.
O relatório anual do instituto sueco, vinculado à Universidade de Gotemburgo, destaca que os EUA perderam o status de democracia liberal pela primeira vez em mais de meio século durante o governo Trump. A pontuação do país despencou 24% em apenas um ano, caindo da 20ª para a 51ª posição em um ranking de 179 nações.
Conforme informação divulgada pelo V-Dem, o fundador do instituto, Staffan Lindberg, resume a situação afirmando que “o atual governo dos EUA tem minado os mecanismos institucionais de controle e equilíbrio, politizado o funcionalismo público e os órgãos de fiscalização, e intimidado o Judiciário, além de atacar a imprensa, a academia, as liberdades civis e as vozes dissidentes”. Essa análise embasa a classificação da regressão democrática nos EUA como de grau severo.
Concentração de Poder e Erosão Institucional
O documento “Desmantelando a Era Democrática” aponta que o segundo mandato de Trump foi marcado por uma rápida e agressiva concentração de poderes na presidência. O nível de democracia regrediu ao patamar de 1965, com o agravante de que todo o progresso alcançado desde então pelo movimento pelos direitos civis foi perdido, segundo o estudo.
A velocidade da autocratização nos EUA é comparada a outros líderes, com Lindberg ressaltando que Trump parece ter alcançado em um ano o que Viktor Orbán levou quatro anos na Hungria, Aleksandar Vučić, oito na Sérvia, e Recep Tayyip Erdogan e Narendra Modi, cerca de uma década na Turquia e na Índia, respectivamente, na supressão de instituições democráticas.
Marginalização do Congresso e Fragilização do Judiciário
No primeiro ano do que o V-Dem classifica como o segundo mandato de Trump, 225 decretos foram assinados pelo presidente, em contraste com apenas 49 leis aprovadas pelo Congresso. Essa disparidade sugere que “o Congresso permitiu que o governo Trump marginalizasse a sua autoridade”, como aponta o relatório.
A Suprema Corte também é apontada como um fator que contribuiu para a ampliação da autoridade do Executivo. O relatório indica uma fragilização do Judiciário, citando como exemplo o perdão concedido pelo presidente a 1.500 condenados pelo ataque de 6 de janeiro ao Capitólio, “minando assim a legitimidade dos tribunais e possivelmente dando um endosso tácito à violência futura”.
Retrocesso em Direitos Civis e Liberdade de Expressão
O declínio democrático nos EUA abrange também o retrocesso na retirada de proteções aos direitos civis, além de ataques a jornalistas e universidades. A liberdade de expressão, segundo o relatório, encontra-se em seu nível mais baixo desde a década de 1940.
Os indicadores eleitorais não sofreram alterações significativas em 2025, pois não houve votações nacionais. No entanto, Lindberg considera as eleições de meio de mandato em novembro, que renovarão parte do Congresso, como um teste crucial para a saúde da democracia no país. A avaliação da democracia pelo V-Dem baseia-se em 48 indicadores, incluindo liberdade de expressão e imprensa, qualidade das eleições e respeito ao Estado de Direito.