PF descobre indícios de rede de influências de juiz federal no Governo do Espírito Santo
A Polícia Federal (PF) divulgou um relatório que aponta indícios de uma **”rede de influências espúrias”** estabelecida pelo juiz federal Macário Júdice Neto no âmbito do Governo do Espírito Santo. A investigação se baseia em conversas interceptadas no celular de um empresário, que teriam revelado a atuação do magistrado em benefício de uma empresa específica.
O juiz Macário Júdice está preso desde dezembro, e as conversas em questão foram mantidas com o empresário Adilson Ferreira. Este último é investigado pela Polícia Civil do Espírito Santo sob suspeita de ser o **”braço financeiro”** de uma facção criminosa local. Os diálogos foram encontrados no aparelho de Ferreira, apreendido em maio de 2025.
De acordo com a PF, os textos e áudios detalham a atuação do juiz em um processo licitatório da Secretaria de Educação, que visava a aquisição de aparelhos de ar-condicionado no valor de até R$ 10,5 milhões. As informações foram compartilhadas com a PF com autorização do ministro Alexandre de Moraes, do STF, e da Justiça do Espírito Santo, conforme divulgado pela fonte.
Atuação em Licitação e Contato com Servidores
O relatório da PF descreve que o juiz federal Macário Júdice acompanhou de perto os passos de um recurso apresentado por uma empresa junto à Procuradoria-Geral do Estado (PGE). Ele teria, inclusive, **orientado estratégias jurídicas** a serem adotadas, afirmando estar em contato com servidores públicos envolvidos no caso.
Em uma das conversas, o juiz menciona aguardar um contato do **”PGR”**, que a PF interpreta como uma referência ao Procurador-Geral do Estado da época, Jasson Amaral. A influência do magistrado no órgão, segundo a investigação, se daria por meio de seu irmão, o procurador Rodrigo Júdice, cujo contato telefônico foi compartilhado com o empresário.
A PF também identificou mensagens entre o empresário Adilson Ferreira e a jornalista Flávia Júdice, esposa do juiz federal Macário Júdice. Os diálogos sugerem uma **relação de amizade próxima** entre eles, conforme apontado pela investigação.
Governo do ES e Procuradoria se Manifestam
A Secretaria de Educação do Espírito Santo afirmou, em nota, que todos os seus processos licitatórios passam por **”rigorosos mecanismos de controle interno”**. O órgão declarou ainda estar à disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos necessários.
A Procuradoria-Geral do Estado (PGE) informou que os recursos administrativos apresentados pela empresa em questão foram **rejeitados**, sem qualquer manifestação favorável. A PGE ressaltou a capacidade e a reputação ilibada dos procuradores citados no relatório da PF.
O procurador Rodrigo Júdice manifestou surpresa e indignação com a menção ao seu nome, negando ter tratado do assunto com seu irmão ou com outros procuradores. Ele afirmou que jamais interveio em procedimentos licitatórios e que nunca autorizou interferências de seus parentes em seus atos profissionais.
Relação com Governador e Pedido de Inquérito
A Polícia Federal também investiga a relação entre o governador Renato Casagrande (PSB) e o juiz Macário Júdice. A PF solicitou a abertura de um inquérito contra o governador após identificar conversas no celular do magistrado que poderiam indicar uma **troca de favores**.
O relatório da PF não estabelece um vínculo direto entre a relação do governador com o juiz e a suposta “rede de influências espúrias” na gestão estadual. No entanto, a investigação aponta que um pedido de Casagrande ao juiz teria sido crucial para viabilizar juridicamente a candidatura de um aliado do governador em 2024.
Anteriormente, o governador Renato Casagrande declarou que o diálogo mantido com o magistrado era de caráter **”institucional e republicano”**. O juiz federal Macário Júdice está preso sob acusação de vazar informações sigilosas de uma investigação ao presidente afastado da Assembleia do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar.
Entenda o Caso: Personagens e Cronologia
A investigação envolve o governador **Renato Casagrande**, o juiz federal **Macário Júdice**, o empresário **Adilson Ferreira**, e o ex-subsecretário de Inteligência da Secretaria de Segurança, **Romualdo Gianordoli**. A Operação Baest, deflagrada em maio de 2025 pela Polícia Civil do ES, focou no “braço financeiro” do tráfico, com Adilson Ferreira sendo um dos alvos.
Em setembro de 2025, o relatório da operação indiciou Ferreira. Em outubro do mesmo ano, Romualdo Gianordoli foi exonerado do cargo por Casagrande. Em janeiro de 2026, o Ministério Público do ES pediu o compartilhamento de diálogos suspeitos entre Macário Júdice e Adilson Ferreira com a PF. No mesmo mês, a PF solicitou a abertura de inquérito sobre a relação entre Casagrande e Macário.
Em fevereiro de 2026, a PF concluiu a análise das conversas e identificou os indícios da “rede de influências espúrias” do juiz no governo capixaba. O Secretário de Segurança, Leonardo Damasceno, afirmou que o governador e ele não tinham conhecimento dos diálogos antes da exoneração de Gianordoli, que teria ocorrido por desgaste com a Polícia Civil e início de atuação política.