Genro do Prefeito de Manaus é Apontado pela PF como Intermediador em Suposta Compra de Votos com Líderes Religiosos
Um laudo da Polícia Federal (PF) trouxe à tona indícios de que Gabriel Alexandre da Silva Lima, genro do prefeito de Manaus, David Almeida, teria atuado como elo em uma suposta negociação para compra de votos, envolvendo lideranças religiosas durante as eleições municipais de 2024.
As informações surgiram a partir da perícia em celulares apreendidos em 2024 pela PF, em uma investigação que apura possíveis atos de corrupção eleitoral na capital amazonense. O laudo, elaborado em dezembro, foi anexado ao inquérito recentemente, detalhando conversas e áudios encontrados nos aparelhos de líderes ligados à Igreja Pentecostal Unida do Brasil (IPUB).
De acordo com a PF, a análise dos dispositivos, incluindo um atribuído ao pastor Flaviano Negreiros, revelou diálogos em um grupo de WhatsApp com um contato identificado como “Gabriel Davi Almeida”, que seria o genro do prefeito. Estes registros apontam para discussões sobre valores e a mobilização de apoio político, levantando suspeitas sobre a legalidade das tratativas.
Conversas Revelam Pedidos de Valores e Cobrança de Pagamentos
Um trecho da perícia destaca um pedido direto a Gabriel para o envio de R$ 80 mil. Em um áudio, um pastor teria afirmado que o valor seria destinado à divisão entre lideranças religiosas, com o objetivo de estimular apoio político. Segundo a transcrição do laudo, a mensagem sugere que o dinheiro seria distribuído entre pastores e obreiros.
A PF aponta que este valor de R$ 80 mil estaria relacionado ao apoio político no segundo turno das eleições de 2024. As mensagens também indicam que um pagamento, cujo valor não foi especificado, teria ocorrido no primeiro turno. Há registros de conversas onde lideranças religiosas cobram de Gabriel o restante do pagamento prometido.
Em outro áudio analisado, um pastor expressa a necessidade de contatar Gabriel para resolver o pagamento pendente. Para os investigadores, essa comunicação reforça a hipótese de que houve uma negociação financeira em troca de apoio eleitoral, configurando um possível esquema de corrupção eleitoral.
Genro do Prefeito Também Teria Solicitado Apoio em Divulgação de Campanha
Além das negociações financeiras, outro áudio recuperado indica que Gabriel também teria solicitado apoio na divulgação da campanha eleitoral. Em uma mensagem enviada a um grupo de pastores, um dos investigados menciona um número eleitoral de um candidato apoiado, sugerindo uma tentativa de mobilizar as lideranças religiosas para ampliar a propaganda política entre os fiéis.
A perícia identificou um contato frequente entre Gabriel e líderes da Igreja Pentecostal Unida do Brasil, incluindo o pastor Flaviano Paes Negreiros. As conversas entre os dois começaram em agosto de 2024, antes do primeiro turno, e incluem mensagens, áudios e fotografias em que aparecem juntos.
Reuniões para Discutir Apoio Eleitoral e Valores
Uma conversa analisada revela que Flaviano convocou líderes religiosos para uma reunião com a presença de Gabriel em uma cafeteria na Zona Oeste de Manaus. Segundo a PF, o encontro teria servido para discutir o apoio eleitoral da igreja, a quantidade de membros e o possível valor a ser pago pela influência nos votos. Esses elementos indicam uma proximidade e interlocução entre a campanha e as lideranças religiosas.
O g1 buscou contato com a Secretaria Municipal de Comunicação, mas não obteve resposta até a última atualização. A reportagem também tenta localizar as defesas de Gabriel e Flaviano para que se manifestem sobre as acusações. A investigação sobre compra de votos envolvendo a gestão de David Almeida é um desdobramento da operação policial de outubro de 2024, que apreendeu celulares e encontrou envelopes com dinheiro em um templo religioso, levantando suspeitas de irregularidades eleitorais.
Demora na Análise de Celulares Gera Questionamentos
Especialistas consultados pela Rede Amazônica apontam que a demora na análise dos celulares apreendidos, que ocorreu há quase um ano e meio, não é comum. A legislação eleitoral estabelece prazos para a conclusão de processos relacionados a pleitos, e investigações não devem se estender indefinidamente. O advogado Alexandre Nogueira ressaltou que o procedimento investigatório precisa ser razoável e que, em breve, o juiz do caso deverá se manifestar sobre o encerramento do inquérito.
A Polícia Federal solicitou o acesso ao conteúdo dos celulares, com concordância do Ministério Público e autorização judicial em novembro de 2024. No entanto, o prazo para a realização da perícia não foi definido, gerando questionamentos sobre a celeridade da investigação. O delegado responsável pelo caso, Eduardo Zózimo, não comentou o motivo da demora.